Anuncie:  

Debate do Mês

Data: 20/5/2011

Que benefício trará para o povo a ida de deputados rondonienses para Santa Catarina?



Colunistas
Receba as matérias do site em seu e-mail

Cadastrar
Cancelar Cadastro


 

Porto Velho,  ter,   21/novembro/2017     
COLUNISTA: Adaídes Batista

Dadá em tempo total

20/6/2003
adaidess@bol.com.br
 
  
OS LIVROS E A GLÓRIA DA BIBLIOTECA

"Os rumores da praça ficam para trás e eu entro na biblioteca. De uma maneira quase física sinto a gravitação dos livros, o âmbito sereno de uma ordem, o tempo dissecado e conservado magicamente". Este é o relato de um moço de idade avançada, cego, exprimindo a sensação de sentir-se entre os livros. Esse moço teve em toda sua vida o livro como seu amor primordial.

Segundo sua biografia amou poucos, – esse amor/paixão, de cama e gozo – se amou algumas mulheres ou alguns homens. Esse moço dizia, se não me engano, que o homem não ler mais que dez livros durante sua vida na terra , o resto são releituras, repetições. Dizia também que a conversa entre duas pessoas no Ocidente nunca é mais que um debate eterno entre Platão e Aristóteles.

Mas quem conheceu esse moço de uma coisa tem certeza, sua vida foi a leitura e seu amor foi o livro...esse moço foi, ou melhor, é – Jorge Luis Borges. Comparando – já que foi o que me foi dado o direito de fazer, já que me foi negado a sabedoria do inventar - a minha vida ao trecho acima de Borges, muitas recordações afloram em minha mente já cansada de eternas releituras à busca da fórmula da sabedoria e da humildade que nunca se revelam nesse castigar-me constante; e entre essas recordações brota de forma brilhante e satisfatória um tempo no seminário quando me foi dado o sublime ofício de cuidar da biblioteca. Era minha responsabilidade limpar, arrumar, catalogar, enfim, amar cada vez mais ( disso os padres não sabiam, ou sabiam?) os livros.

Esse meu casamento durou um ano quando então mudei de seminário. Casamento que, caso fosse minha a decisão, nunca seria desfeito. Relato tudo isso para dizer do meu amor pelos livros e pelas bibliotecas, e que dias desses, numa dessas tardes calorentas da cidade de Porto Velho, resolvi ir visitar as novas instalações da biblioteca municipal Francisco Meirelles. Luta antiga da pertinente, incansável e otimista bibliotecária Glória Valladares. Sou freqüentador e freguês assíduo – lá empresto livros – da biblioteca Francisco Meirelles desde a década de 70 quando tudo por ali era acanhado. Depois, mesmo sem espaço adequado, com a luta tenaz de Glória Valladares, o acervo foi crescendo e se amontoando pelos cantos, pelas caixas, pelos corredores. E a Glória brigando com tudo e com todos por espaço adequado para acomodar os livros, afinal, ela como Jorge Luiz Borges sabe que só mesmo estar junto a pessoa amada em silêncio – as palavras atrapalham o verdadeiro amor – é comparável está com os livros.

Enfim, depois de muitas batalhas, um prefeito nem tão letrado – o que ilumina esses homens que não passaram pelas academias, como Eduardo Ribeiro que construí o Teatro Amazonas, Severino Cabral que construiu o teatro de Campina Grande, a realizarem obras tão importante para a humanidade? – resolveu escutar os reclames e contemplou esse sonho, construindo, verdadeiramente construiu um espaço digno de ser morada dos livros guardados, arrumados, encaixotados há anos por Glória e uma pequena equipe de abnegados que a acompanharam em sua caminhada e luta qual um exército de Brancaleone.

Pois bem, lá estou frente a biblioteca Francisco Meireles e adentro seu recinto. Tudo lindo, ar-condicionado perfeito, elevador, escada de marmorite, espaço para livros infantis, juvenis, tudo belo, tudo perfeito. Ao andar entre estantes vou sentindo um frio subindo em todo o corpo e uma constante aceleração do coração e percebo que vou chorar. Procuro então esconder-me entre as estantes mas afastadas...e quando o organismo movido pela emoção já tinha preparado as lágrimas para rolarem de alegria pelo rosto, ouço uma voz – "Demorou a vir visitar hem!". Era a Glória Valadares. Minha vontade era na momento dar-lhe o maior dos abraços e agradecer-lhe tudo de joelhos...mas ...engoli o choro e a parabenlizei – ela e o prefeito Carlinhos Camurça – pela nossa biblioteca.

Caso pudesse ficaria a tarde toda na biblioteca, mas, tinha tantas coisas para fazer, e para não perder o hábito, emprestei um livro e voltei para o trabalho. Ao chegar em casa depois do cansativo dia de labuta, sentei e peguei o livro emprestado para fazer uma breve e descansada leitura. O livro chama-se "O Fazedor", o primeiro conto era "A Leopoldo Lugones" , e assim terminava: "Assim será (me digo) mas amanhã eu também estarei morto e nossos tempos se confundirão e a cronologia se perderá num orbe de símbolos e, de algum modo, será justo afirmar que eu lhe trouxe este livro e que você o aceitou". O conto fora terminado no dia 9 de agosto de 1960, na cidade de Buenos Aires. Seu autor "Jorge Luis Borges". O começo do conto era assim : "Os rumores da praça ficam para trás ..."

Nenhum comentário sobre esta coluna

Mais colunas de Adaídes Batista
Publicidade: