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Porto Velho,  ter,   21/novembro/2017     
COLUNISTA: Adaídes Batista

Dadá em tempo total

13/8/2003
adaidess@bol.com.br
 
  
A BUSCA FRUSTRADA DA MORTE DE BARRETO E A DISCRIMINAÇÃO PERMANENTE

“Passei a noite de 25 no pavilhão, dormindo muito bem, pois a de 24 tinha passado em claro, errando pelos subúrbios, em pleno delírio.
Amanheci, tomei café e pão e fui à presença de um médico, que me disseram chamar-se Adauto. Tratou-me ele com diferença, fez-me perguntas e deu a entender que, por ele, me punha na rua.
Voltei para o pátio. Que cousa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude , mas doce e compassivo , de camponês transmontano. Ele já me conhecia de outra vez. Chamava-me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha e chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoievski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoievski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria.”
Essa declaração é de Lima Barreto. Está no “Diário do Hospício”, escrito quando Lima esteve internado como louco. Foi internado várias vezes. Lima Barreto sofreu na pele a dor da discriminação e sujeição de uma inteligência à uma elite ladra e fanfarrona como sempre foi a brasileira.

Mesmo depois de 100 anos da dita libertação dos escravos a discriminação racial é evidente na sociedade brasileira, e pior, é uma discriminação velada, sem–vergonha, não assumida mas praticada com maestria e precisão.
A regra que regem a sociedade brasileira ainda é escravocrata. O trabalho é remunerado, mas é visto, pelas elites econômicas, como uma prática servil e submissa. A relação patrão e empregado, quase sempre é como de escravocrata e escravo. O trabalho não é pago, a remuneração é vista como algo que se está dando como esmola para a mera sobrevivência do trabalhador que é visto e tratado pelo patrão como escravo. A mesma regra, o mesmo desrespeito. E a relação é mesmo de escravocrata e escravo quando trata-se de um trabalhador afrobrasileiro. Para isso, não vamos longe, basta comparar o salário de um brasileiro descendente de escravo africanos e de um brasileiro descendente de europeus exercendo o mesmo cargo ou a mesma função. O salário do negro sempre é menor, e na maioria das vezes, muito menor.
O Brasil carrega consigo a triste sina de ser o último país das Américas a libertar os escravos e depois jogar ao léu, ao deus-dará, um contingente de pessoas subnutridas, despreparadas e humilhadas moral e psicologicamente com o peso de 400 anos de escravidão nas costas, e pior, condenando seus descendentes a carga do medo e da submissão por geração sem fim, com a diminuição introjetada no inconsciente, formando esse batalhão de indigentes que atabalhoados, amontoados, secam pelas periferias do país, morrendo de fome e se matando entre si sem qualquer esperança como um amontoado de pessoas atingidas por radiação atômica que “condena” seus descendentes as mais tristes das deformidades.

O “Diário do Hospício” de Lima Barreto é o testemunho mais frio e real da realidade de como foi e é tratada a raça negra e seus descendentes no Brasil.

Esse depoimento de Lima Barreto mostra a situação de penúria em que viveu essa genialidade da literatura brasileira: “ Não me incomodo muito com o hospício, mas o que me aborrece é esse intromissão da polícia na minha vida. De mim para mim, tenho certeza que não sou louco; mas devido ao álcool; misturado com toda a espécie de apreensões que as dificuldades de minha vida material, há seis anos, me assoberbam, de quando em quando dou sinais de loucura: deliro”. Estão pautadas pelo escritor as mazelas que a escravidão colou no inconsciente coletivo do afrobrasileiro numa tentativa de extinguí-lo, primeiramente promovendo-lhe a desgraça: a polícia, o álcool, a miséria e a loucura. As quatros fazem parte de um esquema bem montado, tanto que é dissimulado – a maioria da população carcerária, alcoólatra, miserável e dos hospícios é negra. Isso era no tempo de Lima Barreto (1920) e pior, ainda é.

É preciso que o Brasil – suas elites econômicas e intelectuais, principalmente – assuma esse desprezível racismo para então, só assim, buscar uma saída menos vergonhosa que essas mentirosas que os enganadores de plantão pregam por aí.

E nessa roda viva louca as pessoas vão sendo dilaceradas e enlouquecidas. Principalmente aquelas que tiveram a oportunidade de apreender algum conhecimento e perceber como funciona a tal armadilha e os esquemas do sistema.
Lima Barreto já no final da vida ainda nutria alguma esperança: “Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela”. Nada foi dado à época necessária, pois o conhecimento e a literatura o mataram.

Hoje a obra de Lima Barreto foi traduzida para várias línguas e ele é considerado um dos maiores escritores da nossa literatura (no Brasil, negro bom é negro morto). Sua obra por completo é uma arguta denúncia da cafajestice da sociedade discriminadora brasileira. Estava certo quando afirmou: “ Sempre achei a condição para a obra superior a mais cega e mais absoluta sinceridade”. Aí definiu sua própria obra.

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