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Porto Velho,  ter,   21/novembro/2017     
COLUNISTA: Adaídes Batista

Dadá em tempo total

4/9/2003
adaidess@bol.com.br
 
  
O HOMEM QUE FOI REI

O sol cai monotonamente numa pequena e esquecida ilha do Atlântico. Um homem sentado numa cadeira pouco confortável observa a arte colorida que os raios do sol pintam nas águas do mar lembrando um quadro de um gênio que só irá nascer duas décadas depois chamado Monet e que revolucionará com suas telas brilhantes as artes plásticas no universo da terra.

O homem que observa o mar está gordo, perdeu a altivez própria dos generais vitoriosos e seus cabelos são ralos e agora está profundamente pensativo.

Esse homem foi um gênio militar e político. Ele teve um continente, o mais importante da terra, aos seus pés.

Nessa tarde ele está cabisbaixo, perdido em seus pensamentos. Faltam apenas cinco dias para sua morte e esse ar pensativo relembrando a vida é próprio dos que estão à beira da morte.
Rememora seus dias de glórias quando derrotou poderosos exércitos e teve como amante as mais belas mulheres dos reinos da época.

Agora está ali. Parado. Confinado nessa perdida ilha sem esperanças, sem planos ( para onde foram suas estratégias que revolucionaram para sempre a arte da guerra?), sem deuses, sem rumo - numa situação humana que um poeta há quase um século e meio depois, numa terra distante e tropical, iria tão bem expressar poeticamente numa eterna interrogação: “ E agora José?” ... Está sem mulher, está sem carinho, (...) sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha José! José, para onde?”.

A tarde cai, a tristeza invade a alma daquele homem que um dia foi rei e as lembranças invadem sua mente.

Lembra com angústia seu erro fatal que deu início a sua derrocada. Foi no verão de 1812 quando marchou rumo aquele império de gelo com seu poderoso exército de 600 mil homens. O adversário no início não ofereceu resistência e foi atraindo seu exército para o interior de suas terras-de-gelo infindáveis, saqueando tudo por onde passava, além de incendiar as casas, envenenar a água e destruir as plantações. Sua surpresa maior foi ao chegar a capital da terra dos homens de gelo – a cidade estava deserta.

Agora lembra nitidamente da sua primeira noite naquela enorme cidade deserta. Foi acordada por um forte clarão que invadia o quarto. A cidade estava em chamas. Lembra precisamente das suas exclamações frente aquele espetáculo de Nero: “ Esta gente está queimando a si mesma! Que raça de homens! (...) São coisas que vão além da imaginação: é uma guerra de extermínio, é uma tática atroz, que não tem precedentes na história da humanidade...Incendiar a própria cidade! É uma inspiração do demônio ...Que feroz obstinação! Que povo! Que gente!”. Restou a seu exército uma cidade incendiada...Paredes escuras de fumaça.

Então caiu sobre seu exército a verdadeira desgraça – a chuva constante e cortante de gelo. Aquele inverno infernal. Então teve que assistir seus heróicos guerreiros se retirarem daquelas paragens frias e sombrias, esgotados, famintos e enlouquecidos. Totalmente destroçados, destruídos.
Ao lembrar aquela derrota sente uma profunda vontade de chorar. Seu coração de guerreiro resiste e segura as lágrimas.

A noite está chegando e aquele homem que foi rei reprisa mentalmente sua vida olhando aquele mar de Monet.

De súbito o coração daquele homem se aperta; sua mente é tomada pela lembrança do que mais amou na vida – uma mulher. Por aquele amor matou milhares, pilhou impérios, traiu companheiros, enfrentou - por essa mulher - sem temor o que mais prezava - os familiares. Essa mulher tinha, quando a conheceu, procedência duvidosa, nascera em uma colônia pobre, já tinha filhos, abandonado o marido, tivera amantes. Nada o impediu de amá-la profundamente. Nos campos de batalhas escrevera a ela centenas de cartas que nunca recebera respostas. Mesmo assim a amava perdidamente. Por ela fora humilhado, espezinhado, foi motivo de galhofas nas tavernas. Mas foi o que mais amou na vida.

Aquele homem que foi rei agora está chorando. Faltam poucos dias para sua morte naquela perdida ilha do Atlântico.

Agora sentindo a noite chegar no corpo e na alma, Napoleão Bonaparte olha o mar e chora lembrando de Josefina.

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