Anuncie:  

Debate do Mês

Data: 20/5/2011

Que benefício trará para o povo a ida de deputados rondonienses para Santa Catarina?



Colunistas
Receba as matérias do site em seu e-mail

Cadastrar
Cancelar Cadastro


 

Porto Velho,  ter,   21/novembro/2017     
COLUNISTA: Adaídes Batista

O vazio nosso de cada dia

25/4/2004
adaidess@bol.com.br
 
  
Drummond foi o poeta que durante toda sua vida e sua cria√ß√£o expressou a ang√ļstia e o empecilho que sempre nos barram da possibilidade de sermos felizes plenamente enquanto seres humanos. Compreendo e como compreendo a ang√ļstia humana! Compreendo por ser humano, por saber e sentir essa dor de todos.

O viver humano √© por ess√™ncia tr√°gico, tanto que come√ßa com a vida, ou seja, com o nascer, o desabrochar, e a conclus√£o √© inevitavelmente a morte. ‚ÄúOra, a morte √© s√≥ uma passagem‚ÄĚ dizem alguns cr√©dulos para disfar√ßar o que mais teme. E essa est√≥ria me faz lembrar aquela tirada √≥tima, que certamente deve ter sido inventada num bar por um daqueles insuper√°veis ‚Äúfil√≥sofos‚ÄĚ de balc√£o ‚Äď ‚ÄúTodo mundo quer ver Deus mas ningu√©m quer morrer‚ÄĚ.

Na verdade a morte é trágica para o ser humano, só não para os santos, mas esses são espíritos iluminados que optaram por vir à terra para ajudar os comuns, como nós, que estamos em processo de expiação, de melhoramento, nesse esforçar-se cansativo e contínuo como a trágica tarefa interminável de Sísifo na mitologia grega.

Duas poesias do Drummond expressam essa ‚Äúarmadilha‚ÄĚ que nos deixa esse vazio de viver no degredo, sentindo-se s√≥, sem solu√ß√£o e impossibilitado de resolver essas constantes dificuldades com os quais nos deparamos quando inconscientemente buscamos sair dessa imensa solid√£o que nos invade sempre e tentamos disfar√ßar no dia a dia com o trabalho que tamb√©m, segundo as ‚Äúescrituras‚ÄĚ, √© um castigo, por termos desobedecido a ordem divina e comido o fruto do ‚Äúbem e do mal‚ÄĚ que pode ser traduzido por ‚Äúraz√£o‚ÄĚ, roubando-nos a inoc√™ncia e proporcionando-nos o discernimento das coisas e dos atos, implantando em n√≥s a curiosidade do saber que √© infindo ( da√≠ a ang√ļstia) e a eterna busca da verdade , coisa que o pr√≥prio Cristo quando indagado n√£o soube responder, preferindo calar-se. A ‚Äúraz√£o‚ÄĚ, portanto, segundo os textos b√≠blicos √© produto do pecado, da desobedi√™ncia humana a uma recomenda√ß√£o de Deus. Da√≠ a ‚Äú raz√£o‚ÄĚ n√£o nos deixar em paz com a eterna pergunta: ‚Äúo que estamos fazendo aqui? Qual a raz√£o da vida?‚ÄĚ E (como) essas perguntas ficam sem respostas nos jogam nessa insatisfa√ß√£o constante e nesse vazio que √© a exist√™ncia terrena, que fez um dos articulistas aqui do GuiaRo, o Pedro Wanderlei dos Santos, num dos artigos, se perguntar o motivo da sua ‚Äúinsatisfa√ß√£o constante‚ÄĚ, inclusive se questionando: ‚Äú Porra! Eu mesmo n√£o tenho do que reclamar! Tenho uma esposa linda, que me ama. Tenho meus amigos e minha fam√≠lia. Adoro estar na minha casa, com meus discos e livros.... fico pensando nos lugares que j√° visitei e tenho saudades. Adoro reler meus poemas preferidos e rever as velhas fotos dos √°lbuns de fotografias... Al√©m disso, adoro acender um charuto na varanda, abrir um bom vinho e ouvir a Billie Holliday cantando como nenhuma mulher jamais cantou.‚ÄĚ, e ainda se perguntar: ‚Äú por que tanta ansiedade? Por que esta busca insaci√°vel e inexplic√°vel? Por que n√£o me dou por satisfeito? Por que n√£o valorizo as coisas que j√° tenho?‚ÄĚ

Portanto, novamente constata-se , pelo menos para a mim, que o poeta, como bem dizia um dos grandes, o americano Ezra Pound, √© a antena da ra√ßa. Lembram que eu falei l√° em cima que o Drummond em dois poemas ( para citar somente dois) ‚Äúexpressou a ang√ļstia e o empecilho que sempre nos barram da possibilidade de sermos felizes plenamente enquanto gente‚ÄĚ? Esses poemas s√£o conhecid√≠ssimos:

"NO MEIO DO CAMINHO

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

"Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas t√£o fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho

"tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra‚ÄĚ.

e,

"J O S √Č

"E agora, José?

"A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

"Est√° sem mulher,
est√° sem discurso,
est√° sem carinho,
j√° n√£o pode beber,
j√° n√£o pode fumar,
cuspir j√° n√£o pode,
a noite esfriou,
o dia n√£o veio,
o bonde n√£o veio,
o riso n√£o veio
n√£o veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

"E agora, José?

"Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

"Com a chave na m√£o
quer abrir a porta,
n√£o existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas n√£o h√° mais.

"José, e agora?

"Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...

"Mas você não morre,
você é duro, José!

"Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?"

Est√° a√≠ dito pelo poeta as causas da ang√ļstia e do vazio humano permanente. √Č que nessa vida ‚Äúno meio do caminho tinha uma pedra‚ÄĚ e ‚Äúsem cavalo preto que fuja a galope, voc√™ marcha, Jos√©! Jos√©, para onde?‚ÄĚ

Nenhum comentário sobre esta coluna

Mais colunas de Adaídes Batista
Publicidade: