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Porto Velho,  sáb,   24/fevereiro/2018     
COLUNISTA: Adaídes Batista

O vazio nosso de cada dia

25/4/2004
adaidess@bol.com.br
 
  
Drummond foi o poeta que durante toda sua vida e sua criação expressou a angústia e o empecilho que sempre nos barram da possibilidade de sermos felizes plenamente enquanto seres humanos. Compreendo e como compreendo a angústia humana! Compreendo por ser humano, por saber e sentir essa dor de todos.

O viver humano é por essência trágico, tanto que começa com a vida, ou seja, com o nascer, o desabrochar, e a conclusão é inevitavelmente a morte. “Ora, a morte é só uma passagem” dizem alguns crédulos para disfarçar o que mais teme. E essa estória me faz lembrar aquela tirada ótima, que certamente deve ter sido inventada num bar por um daqueles insuperáveis “filósofos” de balcão – “Todo mundo quer ver Deus mas ninguém quer morrer”.

Na verdade a morte é trágica para o ser humano, só não para os santos, mas esses são espíritos iluminados que optaram por vir à terra para ajudar os comuns, como nós, que estamos em processo de expiação, de melhoramento, nesse esforçar-se cansativo e contínuo como a trágica tarefa interminável de Sísifo na mitologia grega.

Duas poesias do Drummond expressam essa “armadilha” que nos deixa esse vazio de viver no degredo, sentindo-se só, sem solução e impossibilitado de resolver essas constantes dificuldades com os quais nos deparamos quando inconscientemente buscamos sair dessa imensa solidão que nos invade sempre e tentamos disfarçar no dia a dia com o trabalho que também, segundo as “escrituras”, é um castigo, por termos desobedecido a ordem divina e comido o fruto do “bem e do mal” que pode ser traduzido por “razão”, roubando-nos a inocência e proporcionando-nos o discernimento das coisas e dos atos, implantando em nós a curiosidade do saber que é infindo ( daí a angústia) e a eterna busca da verdade , coisa que o próprio Cristo quando indagado não soube responder, preferindo calar-se. A “razão”, portanto, segundo os textos bíblicos é produto do pecado, da desobediência humana a uma recomendação de Deus. Daí a “ razão” não nos deixar em paz com a eterna pergunta: “o que estamos fazendo aqui? Qual a razão da vida?” E (como) essas perguntas ficam sem respostas nos jogam nessa insatisfação constante e nesse vazio que é a existência terrena, que fez um dos articulistas aqui do GuiaRo, o Pedro Wanderlei dos Santos, num dos artigos, se perguntar o motivo da sua “insatisfação constante”, inclusive se questionando: “ Porra! Eu mesmo não tenho do que reclamar! Tenho uma esposa linda, que me ama. Tenho meus amigos e minha família. Adoro estar na minha casa, com meus discos e livros.... fico pensando nos lugares que já visitei e tenho saudades. Adoro reler meus poemas preferidos e rever as velhas fotos dos álbuns de fotografias... Além disso, adoro acender um charuto na varanda, abrir um bom vinho e ouvir a Billie Holliday cantando como nenhuma mulher jamais cantou.”, e ainda se perguntar: “ por que tanta ansiedade? Por que esta busca insaciável e inexplicável? Por que não me dou por satisfeito? Por que não valorizo as coisas que já tenho?”

Portanto, novamente constata-se , pelo menos para a mim, que o poeta, como bem dizia um dos grandes, o americano Ezra Pound, é a antena da raça. Lembram que eu falei lá em cima que o Drummond em dois poemas ( para citar somente dois) “expressou a angústia e o empecilho que sempre nos barram da possibilidade de sermos felizes plenamente enquanto gente”? Esses poemas são conhecidíssimos:

"NO MEIO DO CAMINHO

"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

"Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho

"tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra”.

e,

"J O S É

"E agora, José?

"A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

"Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

"E agora, José?

"Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio - e agora?

"Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.

"José, e agora?

"Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...

"Mas você não morre,
você é duro, José!

"Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?"

Está aí dito pelo poeta as causas da angústia e do vazio humano permanente. É que nessa vida “no meio do caminho tinha uma pedra” e “sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?”

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