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Porto Velho,  dom,   20/agosto/2017     
COLUNISTA: Pedro Porfírio

Quando o corporativismo fala mais alto é a população quem paga o pato

07/08/2013 11:54:47
porfirio@palanquelivre.com
 
  
Médicos e policiais têm atitudes semelhantes na hora de puxar brasa para suas sardinhas e garantir seus interesses próprios

 

Tanto como o lobismo, que puxa brasa para interesses setoriais e se lixa para o país como um desafio conjunto, o corporativismo irresponsável parece destinado a infringir golpes contundentes ao grosso da população desorganizada que até há pouco alimentava uma maioria silenciosa e conformada.


No mesmo momento em que o comandante da PM fluminense decide “anistiar” seus subordinados para lavar a alma da corporação, o governo federal sofre um grande revés ao constatar que os médicos inscritos para o programa de interiorização da saúde não querem nem passar perto dos 700 municípios que não contam com um único profissional para auscultar as batidas dos seus corações.

É como se cumprissem ordens superiores e fim de papo. Sem a parafernália onerosa que fatura os tubos com a indústria da doença não tem conversa. Profilaxia é prejuízo certo aos interesses espúrios que dominam a área. E ai de quem embarcar nessa. A cúpula mercantilista tem vacinas em doses cavalares para qualquer surto anti-corporativo.

O desafio do “bode expiatório”

Há semelhanças indisfarçáveis nas duas situações. Para o coronel Erir Ribeiro Costa Filho a Polícia Militar estava virando bode expiatório de políticas equivocadas de governo, geradoras, estas sim, da insatisfação que mexeu com a autoestima da população.

Numa entrevista coletiva foi às lágrimas para dizer que seus subordinados também eram seres humanos e não tinham como não se exceder nos confrontos com manifestantes indignados. E para polemizar com a mídia por divulgar seus excessos. Isso, embora os policiais historicamente não tenham o menor preparo para lidar com protestos: no asfalto, usam balas de borrachas; na favela vão mais longe e atiram para matar ou dão sumiço a suspeitos sem dó nem piedade.

Profissionalismo de “mercado”

Já os médicos das safras recentes parecem ter optado pela profissão por ser a que oferece maiores oportunidades de ganhos – daí, inclusive, a opção por especialidades onde podem ter maior retorno financeiro. Como se sabe, num país onde as faculdades públicas se tornam cada vez mais excludentes (a não ser pelas cotas) a carreira é a que tem maior número de candidatos por vagas nos vestibulares (127, contra 18 de odontologia, 12 de enfermagem e 10 de nutrição na Unicamp).

Nesse episódio em que uma elite mercantilista fez a cabeça dos profissionais ficou claro que o sistema de saúde naufragou não só pela incompetência e má fé de governantes, mas também por render-se às distorções imediatistas de viés corporativo.

O ex-comandante sabe muito bem que a massa policial não é flor que se cheire e não está nem aí para suas responsabilidades com a sociedade. Exceções à parte, oficiais e soldados descobriram que ganham mais com o estado de insegurança, pois podem se tornar empresários da segurança privada ou nelas fazerem bicos, o que não aconteceria com tanta facilidade se o poder público cumprisse com sua obrigação de proteger os cidadãos.

Os médicos de “mercado”, infelizmente, também se aproveitam do fracasso da saúde pública focada no curativo, onde, se não há todo o dinheiro necessário, o que se lamenta, há muito mais do que em outras áreas e daria para um aproveitamento mais produtivo se não fossem o desprezo pela profilaxia e as práticas deletérias do superfaturamento e até das despesas forjadas.

Profilaxia dá prejuízo à medicina privada

Quando o sistema público de saúde funcionava, até a década de 70, não havia mercado para essas empresas de medicina de grupo – hoje mais de mil – que deitam e rolam tanto na cobrança extorsiva aos segurados, como no pagamento de mixarias aos profissionais que, por conta das distorções consolidadas, não podem viver sem esse mercado de 40 milhões de fregueses.

Os médicos também são vítimas desse arcabouço que ninguém tem coragem de questionar, cujos pilares vão desde a didática das faculdades até à introjeção de hábitos robóticos: compelido a um atendimento em massa, o profissional conversa muito pouco com o paciente, tascando-lhe exames de toda natureza, inclusive de nenhuma necessidade, no que transforma os laboratórios de análise clínica e as empresas de medicina nuclear negócios mais rentáveis do que explorar petróleo e no mesmo nível de lucratividade da poderosa e cada vez mais pujante indústria farmacêutica.

Essas distorções não são criticadas pelos médicos por que fazem parte de uma cultura do inevitável, do mais cômodo, do “é melhor entrar no jogo”, e todos os segmentos econômicos que vivem dos tratamentos sabem muito bem como ganhá-los.

São distorções responsáveis por situações inacreditáveis: hoje, existem mais farmácias do que padarias no Brasil, enquanto as empresas hospitalares se transformam nas meninas dos olhos dos grandes investidores. A rede D’or, uma das que mais crescem no Rio de Janeiro, pertence ao Banco Pactual, e as grandes empresas seguradoras investiram pesado em seus próprios hospitais.

No âmbito da comercialização dos medicamentos, grandes redes também estão nas mãos de quem não sabe nem para que serve uma cibalena. A maior do Rio de Janeiro é de Samuel Barata, irmão do Jacob, o rei dos ônibus.

E a população é quem paga o pato

O que se constata nesses episódios é que tudo isso vai sobrar como uma carga pesada para a população. Em duas áreas essenciais, como segurança e saúde, o desprezo pelo bem comum é explícito, amplo, geral, irrestrito e apresentado como única alternativa de ganhos reais para seus profissionais.

Em ambos os casos, manipula-se o seu foco, evitando pôr o dedo na ferida. Por serem corporações cheias de elos, ligações, poder de fogo e expectativas individualizadas ao extremo, elas parecem intocáveis e invencíveis.

O novo chefe da PM fluminense não será menos corporativo do que o que foi demitido. Não tem como: o último comandante que pensou diferente, o coronel Nazareth Cerqueira, foi assassinado já na reserva, depois de ter dado combate aos grupos de extermínio formados por policiais.

Já os nossos médicos não vão mesmo para o interior longínquo por que não foram preparados para atendimentos sem amparo tecnológico, ou melhor, por que são formados com lavagens cerebrais para bloquear o tipo de medicina adequada nessas circunstâncias, a PREVENTIVA, que independe do complexo médico-industrial e é vista como ameaça a todos os que se fartam no mercado das doenças, principalmente aquelas que se disseminam por falta de informações e profilaxia elementar.

Como os governos também são sacos de gatos, falta-lhes coragem ou vontade política real para encarar a cara feia do corporativismo treinado para todas as formas de pugilato.

Quem sai perdendo com isso é o povo. Mas qual é a novidade?


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