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Porto Velho,  dom,   20/agosto/2017     
COLUNISTA: Pedro Porfírio

Foram eles, sim, esconder por quê?

10/02/2014 13:00:47
porfirio@palanquelivre.com
 
  
Tentar omitir a Ponte Rio-Niterói como obra positiva da ditadura é simular punição compensatória

 Não sei como você entenderá o escrito de hoje. Sei, sim, que seria mais aconselhável omitir-me a respeito, pois estou entrando numa tremenda dividida - pra lá de desigual; portanto de risco visível.

Mas não consegui me conter diante da reportagem de 4 páginas do jornal O GLOBO de hoje, sob o título A PONTE DA DITADURA, na qual consta que o Ministério Público Federal pretende peticionar a mudança do nome da Ponte Rio-Niterói, pela alusão ao general Artur da Costa e Silva.

 
 

A primeira impressão que me ocorreu foi de hipocrisia, covardia, demagogia e mesquinharia. Coisa de quem colaborou e se deu muito bem naqueles anos de chumbo e agora está tentando passar uma borracha.

Por que a história não pode deixar de registrar a incontestável verdade, que só por desonestidade ou má fé se tentaria escamotear: essa obra gigantesca só foi possível graças à determinação do regime militar, que chegou a estatizar o consórcio construtor diante dos mal feitos constatados, sinal de que, ao contrário do que costuma acontecer  nas obras desta suposta democracia vigente, os militares não tinham rabo preso com os empreiteiros naquela construção.

Assim como quase ninguém sabe que o Maracanã foi batizado de Estádio Mário Filho, a Linha Amarela de Avenida Carlos Lacerda, e a Linha Vermelha de Linha Expressa Presidente João Goulart, também não pegou na memória popular o decreto que deu o nome de Presidente Artur Costa e Silva à terceira maior ponte do  mundo (quando ficou pronta).

Essa iniciativa agora de cassar o nome do general é que vai acabar difundindo mais amplamente a informação, criando uma polêmica diversionista e mau caráter. É como se assim estivessem lavando as almas das vítimas da ditadura, compensando a impunidade dos responsáveis pelos seus crimes nos porões da repressão.

 Essa transformação do inventário do regime militar em peça simbólica e meramente midiática é pura má fé. É jogo de cena de quem cultiva a "indústria das sensações", fazendo da mistificação e do embuste fontes de cortinas de fumaça desonestas e manipuladoras. Oferecem-nos, assim, a "sensação de que a  ditadura  está sendo punida".

Com a autoridade de quem combateu o regime  do primeiro ao último dia, de quem foi preso por um ano e meio e torturado por 16 dias no Cenimar, de quem teve sua carreira profissional quase destruída por perseguição política, não me considero cego em relação a certos fatos  históricos: não posso deixar de reconhecer o que se fez de positivo nesse período, em obras corajosas de que até hoje desfrutamos, como o caso da Ponte Rio-Niterói, por  onde passam atualmente 150 mil veículos todos os dias.

Sei que essa minha postura pode parecer contraditória. Já escrevi lamentando que os nomes dos próceres da ditadura permaneçam em escolas, ruas e locais por iniciativas sem nexos, isto é, de forma gratuita, somente por que as autoridades civis estaduais e municipais queriam ficar bem com o regime.

Essa  ponte, inaugurada por Médici e Andreazza,
 nós vamos ficar devendo à ditadura. 
Querer apagar esse fato positivo é desonesto e
compromete o juízo imparcial da história.
Parece meio incoerente que eu esteja reagindo contra essa iniciativa ISOLADA de punir simbolicamente os PAIS DA CRIANÇA. Aos olhos das torcidas organizadas dos partidos e correntes eu vou "de um lado para outro", como se fosse minha obrigação fechar com esse ou aquele grupo, no qual não poderia ver defeito. Ou criticar seus atos.

Vacinado, não me sinto comprometido com nenhuma seita e sempre achei que o certo é o certo, o errado é o errado, envolva quem esteja envolvendo.  Mesmo meus amigos podem errar; mesmo meus adversários podem acertar.
Como sempre, estou aberto a comentários dos meus parceiros-leitores, mas por causa desse caso da Ponte Rio Niterói, sinto-me na obrigação de procurar um entendimento mais lúcido e equilibrado do processo histórico. Será possível admitir, por exemplo, a coragem com que o general Geisel peitou os Estados Unidos ao preferir a tecnologia alemã na instalação das usinas nucleares, quando foi o primeiro país a reconhecer a independência da Angola, sob o governo do MPLA, e quando reconheceu a China Comunista, rompendo com Taiwan?

É complicado: não imagino um nome para a obra da Ponte que esqueça aqueles que empenharam todo o poder acumulado para vê-la construída sobre um mar de dúvidas e incertezas. Gostemos ou não, essa construção gigantesca, sem precedentes na engenharia brasileira, só foi possível pela determinação de alguns militares, pelo envolvimento apaixonado do coronel Mário Andreazzza, como ministro dos Transportes, que chegou a se mudar para o seu canteiro em meio a notícias de falhas e vacilações.

Vou me aprofundar na análise da punição simbólica, mas desde já afirmo: se querem apagar o mérito de quem fez a Ponte Rio Niterói, que levantem a lista completa dos estigmatizáveis. E não fiquem querendo parecer democratas de forma tão oportunista e seletiva, justo onde os militares nos legaram benefícios.
Nesse caso, a serem "coerentes", os defensores desse tipo de punição deveriam propor a demolição pura e simples da Ponte, já que ela tem indiscutivelmente a cara da ditadura
E aí se formaria um desses consórcios de cartas marcadas, da "bola da vez" para construir em seu lugar, quem sabe, um túnel, como idealizou D. Pedro II e como se cogitou na década de 50: como, alias,  adora o prefeito Eduardo Paes.

Poderiam, de quebra, procurar saber das obras inacabadas dos "governos democráticos", como a Ferrovia Norte-Sul, e das verdadeiras razões das obras de destruição, como essa irresponsável demolição do Elevado da Perimetral no Rio de Janeiro, em que vão gastar mais de 1 bilhão e meio de reais.

Quem jogar para a plateia, ninguém pode impedir.  Mas não contem comigo nessas encenações  mesquinhas e desnecessárias, típicas de quem viu o galo cantar, mas não sabe aonde.


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