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Porto Velho,  qui,   14/dezembro/2017     
COLUNISTA: Pedro Porfírio

O rojão de sete cabeças

15/02/2014 11:55:37
porfirio@palanquelivre.com
 
  
Mídia reeditou rolo compressor que deu cobertura à ditadura pintando seus adversários de monstros subversivos

 

Esta matéria está entalada em minha garganta há alguns dias e não é para menos: vivi  todo o terror da ditadura e vi o papel alucinadamente capacho que a mídia desempenhou na época, fazendo de um tudo para dar suporte ao regime, publicando matérias muito mais para prestar serviços do que pela sua natureza jornalística.

Eu mesmo paguei por esse alinhamento incondicional. Chefe de Redação daTRIBUNA DA IMPRENSA, fui preso, torturado e mantido no cárcere por um ano e meio sob a acusação de "terrorismo".  Muitos dos meus colegas sabiam que,  não obstante minha firme oposição ao regime, não estava ligado a nenhum grupo da luta armada. No entanto, O GLOBO chegou a publicar uma foto minha como "terrorista e assaltante de banco", o que me custou uma situação desconfortável na própria TRIBUNA e me valeu anos de ostracismo e sacrifício familiar depois que fui julgado e absolvido na 1ª Auditoria da Marinha.

 

ÚLTIMA HORA de Samuel Wainer, onde dei meus primeiros passos profissionais, publicou uma foto minha de primeira página apontando-me como "agente do Al Fatah" por conta das minhas antigas posições em defesa dos palestinos já na década de 60.

 

Quem é ele que se vestia com a mesma roupa do Caio e
 que está ao lado da polícia? A pergunta está nas redes sociais
Revejo esse comportamento torpe no noticiário exacerbado, repetido, manipulado, carnavalesco, sobre esse incidente do rojão que vitimou nosso colega Santiago Andrade, cinegrafista da TV Bandeirantes, transformado num pretexto bestial para criminalizar os protestos populares e para atingir partidos que não rezam por nenhuma cartilha do poder, tanto como para atingir o político que ameaça derrotar o medíocre candidato tirado do bolso do colete do governador Sérgio Cabral Filho.

 

Decididamente, parece claro que o sistema operou em sintonia para construir seu próprio terrorismo, transformando a explosão do rojão na cabeça do cinegrafista num caso de segurança nacional, criando monstros e incursionando perigosamente em ilações irresponsáveis que chegam ao cúmulo de atingir legendas como o PSOL e o PSTU, que em muitas manifestações no ano passado foram hostilizadas pela massa heterogênea de manifestantes, no seio dos quais muitos tratavam por igual representantes de todo e qualquer partido.

 

De tal direcionamento foi o noticiário a respeito que já no dia posterior à explosão do rojãoeu tive a nítida impressão de que a mídia torcia pela morte do cinegrafista, por que o sistema precisava de um cadáver, de uma vítima fatal dos manifestantes, assim como a ditadura acusava os oposicionistas inclusive pelas bombas que mandava botar, como no Riocentro, para incriminar oposicionistas e justificar o chumbo grosso que atingiu centenas de brasileiros, mortos nas masmorras da tortura, como Rubem Paiva, Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho, citando apenas alguns que estavam claramente fora da contestação mais radical.

 

Nessa operação "de Estado", aconteceram coisas absolutamente despropositadas. Os advogados que apareceram para defender os acusados fizeram um jogo claramente atípico, forçando a "delação premiada" e dando insumos para a manipulação tendenciosa das declarações dos seus clientes. Eles próprias se tornaram condutos das afirmações atribuídas a eles.

 

Um delegado desconhecido, querendo aparecer bem na fita, resolveu fazer o mesmo que fazia o promotor Manes Leitão, o mais canalha da ditadura, para elevar ao máximo a punição dos rapazes. Neste caso, apesar das evidências sobre a inexistência de dolo (quando há intenção de matar), o delegado fez questão de alardear que os rapazes podem pegar até 35 anos de cadeia, com o que ajuda a acuar os indignados que, de uma forma ou de outra, expressam nas ruas os sentimentos de uma população que cansou de ser enganada.

 

Vídeos exibidos nas redes sociais parecem muito mais verídicos, quando mostram policiais infiltrados e diferenças entre suspeitos: é temerário e irresponsavelmente precipitado incriminar esses dois rapazes numa investigação sumária sob encomenda. Amanhã, se provarem a inocência deles, o Estado vai ter uma responsabilidade moral impagável,  pois tudo é possível que tenha acontecido.

 

E a utilização de um rojão como arma mortal é coisa de quem lida com explosivos, de onde se pode supor que estejamos diante de uma farsa com o mesmo escopo da bomba do Riocentro.

 

Vídeo mostra policiais infiltrados confundidos com manifestantes

Ontem mesmo, em Brasília, como reconheceu o ministro Gilberto Carvalho, a PM partiu para a provocação, ao trancar um ônibus usado pelo MST sob a alegação de que as cruzes que estavam lá eram "porretes para confrontos com policiais", o que deu margem à reação dos manifestantes.

 

Curiosamente, há quase uma semana os moradores de uma favela de Jacarepaguá estão fazendo manifestações na Praça Seca em protesto contra a morte de dois jovens, sem nenhum antecedente criminal, vítimas das balas de policiais despreparados e truculentos.  A morte desses jovens, que também são "filhos de Deus",  não causou indignação dessa mídia manipuladora, embora neste caso o DOLO salte à vista.

 

A espetacularização do caso do cinegrafista apresentou lances absolutamente insólitos. Apesar da característica de sua morte, a família tratou de doar seus órgãos, impedindo exames mais rigorosos que estudassem, inclusive, a evolução do seu estado durante o período em que esteve hospitalizado.

 

Bizarro e absolutamente desconfortável foi a viúva aparecer no enterro, juntamente com alguns parentes, vestida com a camisa do Flamengo, como se esse figurino fizesse parte de todo o esquema montado: o mínimo que peço aos meus é que, em qualquer circunstância, sejam os mais sóbrios possíveis quando o meu dia chegar.

 

Com certeza, o sistema jogou todas as suas cartas na exploração da morte do cinegrafista, querendo matar vários coelhos de uma só cajadada.  Até criminalizar vereadores que deram 200 reais para as despesas dos manifestantes que ficaram dias acampados em frente à Câmara entrou no rol das indignidades, tudo para quebrar o prestígio dos partidos que estão de fora desse perigoso jogo do poder, onde a corrupção, a propina e o suborno são os elementos motores.

 

Não sei a esta altura dos acontecimentos se todo o espetáculo midiático vai inibir manifestações de ruas, esperadas diante da incúria e da cumplicidade, do desvio dos dinheiros públicos, do abandono da saúde e da educação pública.

 

Parece que não.  Mas por algum tempo muitos jovens da periferia, ao contrário do que declarou o prefeito Eduardo Paes, um bobalhão de carteirinha, que os taxou de "filhinhos de papai", como ele, vão temer virar novos bodes expiatórios de um rolo compressor midiático sem qualquer compromisso com a verdade e a lógica.

 

Ontem mesmo, manifestantes voltaram a ocupar a Avenida Presidente Vargas contra os aumentos das passagens, autorizadas pelo prefeito, embora técnicos do Tribunal de Contas do Município, que tiveram acessos a planilhas, tenham relatado que o certo seria reduzi-las, por que elas estão superfaturadas.
 
Quando a população acordar dessa dose cavalar de inibidores que o noticiário recente disseminou sua indignação poderá ser maior ainda. Que mais pessoas sairão às ruas e que as urnas reflitam também toda a indignação de um povo espoliado e enganado por todos os que exercem esses podres poderes. 


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