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Porto Velho,  qui,   2/julho/2020     
reportagem

Quando o crescimento é um estorvo

21/8/2004 10:29:59
Por José Paulo Kupfer
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Assistimos, nos últimos dias, a fenômenos econômicos dos mais interessantes. Num dado momento, as cotações internacionais do petróleo bateram recordes históricos de alta e, em conseqüência, de acordo com os analistas, no mercado brasileiro, o dólar se desvalorizou, a bolsa de valores caiu e o risco-país subiu. Noutro momento, o preço do petróleo bateu novo recorde, mas o dólar recuou, a bolsa subiu e o risco-país registrou uma redução. Interessante mesmo. 


 Está na cara que a alta das cotações do petróleo, pelo menos nesta atual quadra, é uma das razões que NÃO explicam o que se passa no mercado financeiro brasileiro. O que, então, explicaria o comportamento divergente das cotações para o mesmo fato? Bem, para o bom (?) comportamento do mercado no começo da semana, a explicação mais difundida foi a de que, embora o preço do petróleo continue nas alturas, os últimos sinais da economia americana indicavam um ritmo de crescimento menos acelerado – o que, traduzido para o financês, significava que o Banco Central americano (Fed) não precisaria elevar tão rápido as taxas de juros nos Estados Unidos, com todas as conseqüências do fato para os mercado emergentes.

É claro que essa explicação também não explica muito bem o comportamento do mercado brasileiro, mas entenderam a mensagem? Para o pessoal do mercado financeiro, crescimento econômico é má notícia. Como expansão dos negócios é boa notícia para quase todo mundo que vive no mundo real, conclui-se que o mundo financeiro é de Marte e o resto do mundo é de Vênus.

Esse é um ponto que não deveria ser esquecido, ainda que freqüentemente o seja. Faz tempo que os sistemas financeiros vêm se descolando do mundo real da produção e do comércio. Esse descolamento acelerou-se na década de 70, quando o então presidente Richard Nixon, no maior calote de que o mundo já teve notícia, anunciou, unilateralmente, que o dólar não teria mais lastro em equivalentes em ouro. A partir daí, a inscrição impressa nas notas do dinheiro americano (“In god we trust”) ganhou significado literal. Para valer o que estava escrito naqueles pedaços de papel esverdeado, só mesmo acreditando.

Mesmo movimentando acima de US$ 10 trilhões por dia – mais do que o equivalente ao movimento do comércio internacional por ano –, o mercado financeiro vive crescentemente da fé no que possa vir a acontecer. A chave do seu funcionamento são as expectativas. Não que os duros da vida produtiva deixaram de ter importância nas decisões e, em conseqüência, nos movimentos financeiros. Mas seus efeitos, se bem que mais duradouros, são menos imediatos. No curto prazo, que é o que alimenta o mercado financeiro, a versão acaba valendo mais do que o fato.

Exemplo recente: os juros americanos começaram a subir e, mais depressa ou mais devagar, vão continuar subindo, um óbvio indicativo de inevitáveis reacomodações de ativos. Mas, como isso foi longamente preparado em comunicados regulares do Fed, o remelexo tem sido muito mais suave do que o antes imaginado. As expectativas, em resumo, anteciparam os fatos.

O problema de um mundo econômico movido a expectativas é que elas podem funcionar como o cachorro que morde o próprio rabo. Veja como funciona o nosso amado Comitê de Política Monetária (Copom). Para definir os juros básicos da economia, os doutos nove dirigentes do BC do Copom se valem, entre outros indicadores, das expectativas de inflação de uma centena de economistas de bancos, reunidas numa pesquisa semanal que é divulgada no Boletim Focus.

Se eles acham que a inflação anual vai superar o centro da meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), o Copom acena com um aperto nos juros para... reduzir as expectativas de seus consultados. Já é esquisito que o BC recorra a um grupo homogêneo de analistas que acredita nas mesmas verdades econômicas e utiliza as mesmas ferramentas de análise que o próprio BC usa. Mas sabem como se formam, pelo menos em parte, essas expectativas? Justamente nas indicações das atas do Copom e da ação da política monetária cotidiana do BC.

O mundo dos financistas é um mundo à parte dos fatores reais de produção, que tem muito pouco a ver com a vida produtiva das pessoas. Só nesse mundo restrito, movido a fé numa moeda virtual, é que crescimento econômico pode ser um estorvo.

Fonte: No Mínimo - www.nominimo.com.br


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