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Porto Velho,  qua,   22/janeiro/2020     
reportagem

Ângela, menina do Areal da Floresta, viaja pela prostituição

9/9/2004 14:09:42
 
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Em abril de 2002 a menina-moça Ângela, moradora do Areal da Floresta, bairro pobre de Porto Velho, iniciava uma viagem que marcará para sempre sua vida.Tinha apenas 13 anos quando se deixou levar pelo modismo, “ficando” com um colega da Escola Jesus Burlamarqui. Com ele perdeu a virgindade e hoje ganha dinheiro deitando com homens acima dos trinta. 


 Não existe estatística oficial, mas as escolas públicas de Porto Velho funcionam – umas mais outras menos – como autênticas ante-salas de entrada para a prostituição juvenil. O próprio Secretário de Estado da Educação, César Licório, visitando uma grande escola de bairro, para o lançamento um programa de prevenção à gravidez precoce, admitia que este é um problema crescente entre os estudantes adolescentes.

Ângela tem feições juvenis, próprias de seus 15 anos. Ela não deverá despertar o interesse daqueles que lançaram o tal programa, uma iniciativa de pouco alcance porque parece não ir além das corriqueiras palestras.

Como tantas adolescentes, a garota do Areal teve sorte até agora e não se engravidou. Possivelmente está ai a explicação para a sua permanência numa das salas do ensino fundamental da Escola Jesus Burlamarqui. Afinal, disse o Secretário José Licório, na época do lançamento do Programa, a Imprensa Popular: “A gravidez precoce aumenta as estatísticas da evasão escolar. Normalmente leva as mocinhas a abandonar os estudos”.



LAR DESEQUILIBRADO


Na curta história dessa adolescente de cabelos castanhos um pouco abaixo dos ombros, os ingredientes sociais são os corriqueiros de quem vive nas áreas de maior carência econômica. Ela praticamente não chegou a conhecer o pai. Sua mãe, que ainda é jovem, deixou o marido (“Ele bebia muito!”) e arrumou um amante boa pinta. Ângela nunca conseguiu viver em harmonia “com a mãe” e o padrasto. Nem por isso – como acontece na maioria das vezes – saiu de casa. Vive lá e faz o que bem entende. A mãe não a recrimina “porque quando fala alguma coisa”, vai contando a própria Ângela, “tem de ouvir sobre a sua própria vida desregrada”. O padrasto desistiu de “fazer sermão” quando foi alertado pela enteada de que poderia ser denunciado “na Delegacia do Menor” para explicar algumas aproximações mais íntimas.

Continuar indo na escola e não sair de casa não foi o bastante para impedir Ângela de “vender” o corpo. Sem dinheiro e com vontade de um comprar uma roupa nova, a garota descobriu com uma colega “um pouco mais velha” que “era possível arrumar o dinheiro” se saísse “com um homem” muito educado, de uns 50 anos, participando as duas de “algumas brincadeiras sexuais” por umas duas horas.



SENSAÇÃO DE MEDO


Ângela confessa ter sentido “uma ansiedade diante da proposta” e quase recusou. Mas foi, incentivada pela colega. A garantia de que nesse primeiro encontro “profissional” só faria aquilo que quisesse e que não seria forçada “a fazer tudo”, fez com que Ângela entrasse na sofisticada camionete “de um coroa até simpático” onde tocava “uma dessas músicas antigas, falando de dor de cotovelo”.

“Quando eu entrei no motel com a minha amiga e esse coroa, não sabia como agir, estava tremendo e tive vontade de desistir”, afirmou Ângela. Mas um pouco de cerveja e o incentivo da amiga, com “a promessa de que ganharia dinheiro para comprar a saia e o sapato” cobiçados no dia anterior levou Ângela até o fim da aventura.

— Eu na verdade só tinha transado umas três vezes, não tinha a menor idéia do que duas mulheres e um homem fariam num quarto. Eu nem sabia o que era motel.



PAIXÃO


Relembrando o seu primeiro encontro “por dinheiro”, Ângela revela que “o homem que nos levou” é dono de uma importante revenda de automóveis da capital. “Ele foi muito carinhoso comigo, quase deixou minha colega de lado, dizendo que eu era a sua virgenzinha”, explica a garota do Areal da Floresta. E acrescentando diz: “Eu também fiquei muito interessada nele. Foi o primeiro homem experiente da minha vida. Antes era apenas um namorico. Ele passou a ser um parceiro cativo, só que eu me apaixonei por ele”.

E então, depois de vários encontros com o tal “empresário”, Ângela sofreu sua primeira decepção amorosa. O homem, casado, começou a se afastar. Ângela descobriu uma das leis do sexo profissional: “Na putaria, ninguém é de ninguém. O meu homem passou a me evitar e logo eu precisei sair com um outro para conseguir dinheiro”.


POUCAS VIRGENS


Na escola onde Ângela estuda o sexo começa cedo. Ela conta que a maioria das meninas de 13 e 14 anos “não são virgens” e transam sem maiores restrições com seus namorados. A maioria rapazes da própria escola ou vizinhos do mesmo bairro onde moram. Poucas, vai revelando Ângela, “preocupam-se em usar preservativos e aceitam transar numa boa se os namorados também não usarem”.

Esses relacionamentos duram pouco com a mesma pessoa. “As meninas acabam trocando de namorado por qualquer coisa e, claro, vão transar com o outro”. A maioria, acrescenta, “não sabe o que é transar por dinheiro” e perdem seu tempo “com essa meninada quem não tem futuro”.

Mas a própria Ângela enfatiza que “não se consegue ver como uma puta” e nem seus eventuais parceiros de programas como clientes. “Sou mais uma namoradinha. Só aceito dinheiro quando estou realmente necessitada e nem coloco um preço, uma tabela. Digo apenas o que preciso e normalmente e acabo ganhando o presente”. São coisas simples, como uma roupa, um calçado, um dinheiro para ajudar a comprar coisas de casa, uma entrada para um show como esse que vai acontecer agora, da Sândi e Júnior.

Na verdade Ângela não quer ser puta. Ela nem freqüenta a Carlos Gomes. Suas aventuras acontecem “por indicações de colegas” ou por pessoas “escolhidas” no piseiro (botecos de forró como o Papo de Esquina) onde costuma procurar diversão.

COISA NATURAL


No caso de Ângela a revelação para a família de que “tinha perdido” a virgindade não causou maiores problemas. “Eu e mamãe ficamos brigadas uns dias, mas depois ela voltou a falar comigo, porque senão eu iria morar com umas amigas”. Ela confessa, acrescentando que sua mãe e seu padrasto desconfiam de suas saídas “mas não falam nada, não perguntam de onde vem o dinheiro” com que ajuda nas despesas da família.

Mas isso, na opinião da garota do Areal da Floresta, isso não é privilégio seu: “Eu acho que hoje isso é muito natural. Eu tenho uma vizinha da mesma idade que recentemente ganhou um filho. Seus pais eram muito rígidos e mesmo assim registraram a criança como se fosse deles. E a Bruna não precisou sair de casa. Continua indo às festinhas, arrumando homens para ganhar algum dinheiro e os pais não falam mais nada. Não querem saber se é verdade que a filha, mãe solteira, sai ou não com homens mais velhos por ai”, detalhou.



BONITOS NÃO DÃO NADA


Com apenas 15 anos e um sonho de “ser médica” um dia, ganhando muito dinheiro, tendo um “marido bem de vida que possa pagar viagens” para conhecer as “praias do Brasil”, Ângela garante que “os homens entre 30 e 45 anos, casados, têm um toque mais agradável” do que “os rapazes muito jovens”, no geral mais tímidos.

Para ela “rapazes bonitos não precisam pagar uma mulher para ir ao motel”. No dias de hoje, explica a nossa entrevistada, “esse tipo de moço pega quem quiser, numa nice”, sem ter de gastar nada.

Ângela tem sonhos mas na verdade não tem muitos parâmetros para falar sobre suas realizações. Ela não tem muita confiança de que, por exemplo, chegará a concluir o segundo grau para entrar numa faculdade, porque está muito atrasada e tem “horror à matemática”. Não costuma ler nada, fora dos livros escolares. Não sabe o que é uma orquestra, o que é música clássica. Gosta só dos artistas famosos na televisão. Não tem a menor idéia do que é um teatro. Ela acha que “é igual” a todas as suas outras colegas. Mas Ângela não perde a esperança de ser feliz , de nunca “ser puta”, de arrumar “um homem gentil, uma família de verdade e uma casa bonita”.


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