Anuncie:  

Debate do Mês

Data: 20/5/2011

Que benefício trará para o povo a ida de deputados rondonienses para Santa Catarina?



Colunistas
Receba as matérias do site em seu e-mail

Cadastrar
Cancelar Cadastro

 

Porto Velho,  qua,   28/outubro/2020     
artigos

Prazer imoral

1/11/2004 11:33:50
Aldrin Willy
Comente     versão para impressão     mandar para um amigo    



Artigo feito em homenagem ao Dia das Crianças, de 12 de outubro, comemorado com uma doação de brinquedos numa faculdade de Porto Velho. Os personagens são fictícios, mas com base na realidade. 


 Enquanto Zezinho fixa os olhos nas páginas coloridas do livro que acaba de ganhar de um menino bem vestido, robusto, bonito e simpático, seus coleguinhas ávidos por brinquedos fazem um alarido retumbante em sua volta. Embora estrondosa, a algazarra é insuficiente para perturbá-lo no empreendimento a que acabara de se incumbir: ler a história, o livro inteiro, para compreendê-la ao final.

As gravuras do livro saltam-lhe aos olhos. As palavras parecem dialogar com ele como que se ambos estivessem a trocar confidências num quarto fechado e em silêncio. Os gritos animalescos de seus pequenos amigos não penetram neste mundo paralelo de Zezinho, dentro do qual só cabem as palavras e ele próprio.

A última página relembra-lhe sua missão e lança o desafio num golpe presto, inescapável: “O que você entendeu desta história?”

Zezinho, menino pobre (como os que pulam em sua volta), de família esfacelada (a exemplo daqueles), vítima da escola pública (como o são as crianças ao redor), não atendeu o desafio. Ele não sabe como responder à afrontosa pergunta do autor no último parágrafo. Das palavras, outrora confidentes amigas, não conseguiu enxergar a união. Em sua mente, as mensagens passadas por elas, em vez dum tecido lúcido onde se vislumbra a beleza da coesão, coerência e clareza, formam um emaranhado de idéias desconexas.

Zezinho ira-se contra o livro. A ignorância e a quase total inaptidão para o exercício mental, das quais não tem culpa, fazem brotar nele um ódio mortal àqueles que não sofrem de suas inabilidades, àqueles que conseguem ler uma sentença inteira e compreender seu sentido, em última análise, àqueles que têm uma boa família com uma boa renda, que podem estudar em bons colégios e desfrutar de bons professores.

Tomado pela fúria, Zé atira o livro contra a face do menino a sua frente que ri sádica e compulsivamente de sua miséria. É o mesmo menino bem vestido e saudável que o presenteara com o livro no início. Filho da nobreza, estava ali apenas por imposição da mãe, dada à filantropia, que não quis deixá-lo em casa. O fidalgo deu-lhe o livro apenas para sua própria e dantesca diversão: ver a cara de desalento dos desamparados. Ficou durante todo o tempo sentado a sua frente, de braços entrecruzados, observando Zezinho, vendo seu semblante contente de início, o deslumbramento do menino pobre com o livro e a face de imbecil que ganhou quando concluiu a leitura. Ao ver seu aspecto de ignorância mesclada com raiva, o menino rico sentiu o mesmo prazer imoral que sente o domador cruel ao admirar os cães macérrimos se engalfinharem pelas sobras de sua refeição.

O livro atirado por Zezinho provoca a cólera dos pais do menino rico. A mãe pressiona o coordenador do evento beneficente para que ponha o pobre Zé de castigo numa sala isolada. Trancado, sem amigos, sem entender a história que lera, Zezinho passa o resto do dia naquela sala, debruçado sobre a janela que dá para o pátio, observando os coleguinhas pobres se divertindo com os brinquedos que ganharam, brincando como selvagens despidos de crítica.


Nenhum comentário sobre esta matéria

Mais Notícias
Publicidade: