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Porto Velho,  dom,   8/dezembro/2019     
artigos

Mortes incomuns devem despertar os vivos

19/4/2005 11:40:37
Imprensa Popular
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A morte de mais de duas dezenas de beb√™s no Hospital de Base, exp√Ķe de maneira insofism√°vel a trag√©dia da Sa√ļde P√ļblica em nosso Estado. Por tr√°s dos n√ļmeros t√©tricos o que se v√™ √© que a pr√≥pria popula√ß√£o parece ter naturalizado as conseq√ľ√™ncias dessa trag√©dia, deixando de discutir os principais problemas que determinam estes barbarismos. 


 Ningu√©m conseguir√° esconder que foi um tanto incomum, a morte de duas dezenas, aproximadas, de beb√™s no Hospital de Base – o mais importante de Rond√īnia – no final do m√™s de mar√ßo. √Č verdade que todos os dias morrem, aqui, pessoas v√≠timas da defici√™ncia da sa√ļde p√ļblica, exposta na rede hospitalar do governo. Este √© um tema que quase sempre √© tratado sem a visibilidade necess√°ria. Sem mostrar, por exemplo, que por tr√°s destes n√ļmeros h√° uma predomin√Ęncia de parturientes cada vez mais jovens, que n√£o fazem o pr√©-natal adequado, sem informa√ß√Ķes, oriundas de fam√≠lias com alto grau de desestrutura√ß√£o, com problemas de desemprego, sofrendo as car√™ncias da pobreza.

O sistema de sa√ļde rondoniense √© considerado, de h√° muito, lastim√°vel. Tanto que a popula√ß√£o parece ter naturalizado as conseq√ľ√™ncias de sua gest√£o falida e por isso n√£o reage √†s suas defici√™ncias. Mesmo agora, diante desse barbarismo, as demonstra√ß√Ķes de indigna√ß√£o – que seriam gestos bem-vindos – n√£o mostram as quest√Ķes da segrega√ß√£o s√≥cio-econ√īmica, como predominantes na defini√ß√£o das v√≠timas, e ficam apenas nas questi√ļnculas das disputas ou brigas pol√≠ticas.

Muitos ao abordarem essa trag√©dia ainda n√£o despertaram a consci√™ncia de que ela √© a express√£o, o resultado, a materializa√ß√£o de um sistema pol√≠tico-administrativo fortalecido – crescido – nas pr√°ticas do segregacionismo. A interven√ß√£o do Estado na rede hospitalar rondoniense √© epis√≥dica. Aconteceu muito mais para atender os interesses de grupos e conting√™ncias eleitorais do que para atender √† grande massa dos despossu√≠dos. Quem n√£o se lembra das den√ļncias em torno da transa√ß√£o do Estado na compra de um hospital particular que deu origem ao “Jo√£o Paulo II”? A falta de responsabilidade foi a marca da transa√ß√£o. O que se gastou na sua compra e, depois, nas suas v√°rias reformas, foram recursos destinados apenas √†s prescri√ß√Ķes midi√°ticas de efic√°cia fugaz.

Rond√īnia continua sofrendo com a falta de uma pol√≠tica que coloque no centro de seus projetos a afirma√ß√£o dos direitos dos indiv√≠duos, como fundamento b√°sico de emancipa√ß√£o social. No setor de Sa√ļde, desde o primeiro momento, executou-se uma pol√≠tica de coopera√ß√£o que premiou sobremodo o mercantilismo – possibilitando que uma cidade pobre como Porto Velho fosse pontilhada de hospitais e cl√≠nicas de luxo – transformando a popula√ß√£o em corpo in√ļtil para os des√≠gnios da acumula√ß√£o de capital.

A Sa√ļde P√ļblica rondoniense – atrav√©s da rede hospitalar p√ļblica – funciona como um conjunto de espa√ßos de segrega√ß√£o e guetos, onde s√£o perpetradas ampliadas de desumaniza√ß√£o. Ele convive, diante da rede privada, como cooperador de formas de consumo e riquezas nunca vistas ou imaginada pela popula√ß√£o no nascedouro do Estado.

A morte desses bebês no Hospital de Base tem motivado algumas vozes de resistência e rebeldia, mas a pasteurização do espetáculo de pobreza que domina o cenário estadual impede que o acontecimento ganhe força subjetiva utópica, que se expresse como programa político de mudança.

Numa entrevista exclusiva a Imprensa Popular, o m√©dico Amado Rahal, diretor geral do Hospital de Base, garante que nenhuma das mortes dos beb√™s foi motivada pela infec√ß√£o hospitalar. Ao dar explica√ß√Ķes sobre como estas crian√ßas chegaram ao HB, fica patente – em sua vis√£o – que na vida desses beb√™s atravessou as desigualdades da civiliza√ß√£o material capitalista.

Cabe aos pol√≠ticos – mormente √†queles dedicados √† critica sem quartel da Administra√ß√£o – encontrar na tr√©gua de compaix√£o face √†s v√≠timas, lembrando da necessidade de construir um sistema que rompa com a naturaliza√ß√£o das desigualdades para garantir a prote√ß√£o e a sobreviv√™ncia dos mais pobres, que precisam ter condi√ß√Ķes de se transformarem em sujeitos de sua pr√≥pria emancipa√ß√£o.

Quando morrem tantas crian√ßas num Hospital que desde a sua funda√ß√£o se constituiu em refer√™ncia na regi√£o, fica claro que neste cen√°rio n√£o pode haver espa√ßos para vacila√ß√Ķes e omiss√Ķes que poder√£o resultar em novas trag√©dias. √Č preciso, sim, a puni√ß√£o dos respons√°veis por tamanha trag√©dia; mas as causas determinantes do nascimento de tantas crian√ßas de gravidez precoce e de m√£es que n√£o foram convenientemente assistidas precisam ser enfrentadas atrav√©s de uma a√ß√£o articulada e permanente, entre Governo do Estado, Munic√≠pios e demais institui√ß√Ķes da cidadania, incluindo-se nesta a√ß√£o, uma campanha para o resgate dos valores da fam√≠lia, sem os quais veremos aumentar o n√ļmero de nossas meninas em situa√ß√£o de gravidez indesej√°vel.


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