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Porto Velho,  sex,   20/setembro/2019     
entrevista

Nem hotel nem nada será construído no entorno do patrimônio histórico

18/4/2006 03:06:01
 
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Luiz Leite não esconde a ira contra os “grupos econômicos” responsáveis, em sua opinião, pela difusão de sua imagem como exterminador de empregos e de investimentos no centro da cidade. 


 Na definição de Aurélio Buarque de Holanda, monumento é a “obra ou construção destinada a transmitir à posteridade a memória de fato ou pessoa notável” ou ainda, explica o dicionarista, “qualquer obra notável”. Foi o entendimento sobre o valor das Três Caixas D’água como monumento na área central de Porto Velho que levou o arquiteto Luiz Leite, superintendente do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) em Rondônia, a tentar explicar numa difícil entrevista concedida a Imprensa Popular, o embargo das obras da construção de um hotel de nível internacional no que ele considera o “entorno” do conjunto da Estrada de Ferro Madeira Mamoré (EFMM), tombado como patrimônio histórico da União no mês de julho do ano passado.

É claro que as três caixas d’água existentes na praça de mesmo nome (no momento fechada para obras de reforma), consideradas por Luiz Leite como “monumento”, não foram construídas para “transmitir à posteridade” a memória de um fato ou pessoa notável, embora seja forçoso reconhecer sua importância histórica na fundação de Porto Velho. Não são, também, uma obra notável de engenharia que merecesse esta classificação. Mas, por essa visão caolha elas servem de biombo à ação que está inviabilizando um investimento milionário no centro da capital, embargado no momento em que seus empreendedores iniciavam as obras civis de fundação para levantar o prédio da ordem de 10 andares, onde funcionaria um hotel capaz de gerar mais de 200 empregos diretos para amenizar o desemprego de Porto Velho.

SEM CLAREZA

O superintendente do Iphan em Rondônia não é fácil de ser entrevistado. Suas respostas nunca são claras. Luiz não gosta de dar informações diretas. Quando questionado sobre o número de funcionários do órgão no Estado, laconicamente explica que deve ser “entre três e quatro” sem conseguir explicar o que realmente fazem estes servidores, preferindo uma resposta dúbia como essa: “Estamos fazendo praticamente o impossível para tocar esta instituição, que é uma instituição séria e responsável”. Nega-se, todavia, a dizer quanto custa para o contribuinte, em termos de salário, o número dos servidores do Iphan, preferindo acrescentar que o quadro deverá ser ampliado porque haverá ainda este ano a abertura de concurso público para novas contratações.

É interessante a preocupação de Luiz Leite em manter sobre sigilo o responsável por sua indicação para superintendente. Diz não acreditar que sua indicação teve o aval do PT ou da senadora Fátima Cleide. Revela apenas ter sido chamado em Brasília pelo presidente do Instituto que o nomeou para comandar o Iphan no Estado. Ele não acredita nem mesmo que sua escolha foi decorrente da participação destacada em entidades de defesa da história da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré ou de outros elementos considerados integrantes do patrimônio histórico do Estado.

Leite está no cargo de superintende do órgão desde julho de 2005. De lá para cá está orgulhoso porque “o estado de Rondônia já tem mais elementos tombados do que o Acre” e porque a própria Estrada de Ferro Madeira-Mamoré tornou elemento tombado pela União, como destacou.

NADA PARA ANUNCIAR


Quando perguntado sobre o que o Iphan realizou no Estado nesse quase um ano de existência, Leite engasga, tergiversa e acaba fazendo o seguinte comentário: “A EFMM fica pior a cada ano e fica cada vez mais difícil de ser restaurada. Mas se temos agora aqui em Rondônia uma instituição como o Iphan ela não vai ficar como está. Estamos trabalhando com muitas dificuldades pra conseguir alguma coisa, principalmente para se não destruir mais do que [ela] está destruída. Esse é o grande problema. É proibido destruir”.

E com isso o arquiteto que agora responde pelo Iphan deixa claro que a construção de um hotel num prédio com aproximadamente 10 andares é um tipo de destruição do sítio histórico do centro de Porto Velho. Ele não apresenta e nem fala sobre projetos capazes de recuperar monumentos, valorizá-los, mas acentua que “nós temos de lutar para restaurar”. É uma expressão dúbia, pois em seguida o homem do Iphan passa a responsabilidade para o governo, quando afirma que “o nosso negócio, o negócio do Iphan é proteger e a obrigação do governo é recuperar e ele é que tem de mandar verba pra cá”.

NADA DE QUADRAS

É difícil compreender o que realmente defende este chefe do Iphan no Estado. Pelo menos é fácil saber o que ele não aceita. Qualquer projeto um pouco mais ousado de reurbanização “no entorno da estrada de ferro” que contenha elementos como quadras de esporte terá rechaço formal do órgão. “Esse negócio de fazer quadras de esporte, etc, não pode porque a lei proíbe”, disse.

Leite se irrita quando alguém define o que resta da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré como “um monte de ferro velho que está sendo comido pela ferrugem” e não como “um monumento” histórico que pudesse estar servindo à cidade e ao Estado como um pólo de atração turística, de geração de emprego e renda.

Ele até concorda que a maior parte da área da Praça da Estação da EFMM está realmente abandonada. O próprio Luiz fica apreensivo “com a prostituição e os jogos de azar que acontecem sem qualquer coibição por parte das autoridades naquelas barracas na beira do rio”. Para ele esta é uma situação a espera de mudanças, pois “até a estação de passageiros é invadida por marginais e desocupados”.

Esta é uma situação que precisa terminar e Luiz garantiu que seu órgão vai agir: “O Iphan vai acabar com essa marginalidade, vai tirar aquelas barracas horríveis do pátio da Madeira-Mamoré, exigindo das autoridades medidas para isso”, sublinhou.

Mas nesse quadro de caos característico daquele “monumento” histórico, uma coisa agrada o representante do Iphan no estado: “A locomotiva 18, a única a ser mantida em condições de funcionar” e que rodou no último dia 24. E é exatamente porque esta locomotiva ainda consegue rodar que Luiz Leite acha correto a cobrança irregular de estacionamento na área para destinar o dinheiro arrecadado ao funcionamento daquela Maria-fumaça.

VISIBILIDADE

O chamado centro histórico de Porto Velho está descaracterizado há muito tempo. Não é a construção de um novo prédio, como o projeto do hotel, que iria modificar de forma sensível esta situação. Pelo critério da visibilidade das três caixas d’água (conhecidas como Três Marias) outras construções, como o próprio prédio da Caixa Econômica Federal, entram em desacordo com o conjunto histórico da capital, onde se insere a tal praça, o Palácio do governo e o prédio da reitoria da Unir. É claro que o prédio da Caixa também tira a visibilidade das “Três Marias”, mas nem por isso sofreu embargo, tanto é que está lá.

Mesmo assim Luiz Leite crê que a proibição de construção do hotel foi uma medida “acertada”, apoiada pelas pessoas idosas da Vila Caiari, “pois eles lutaram muito para que nada fosse construído ali modificando aquele conjunto arquitetônico representativo da memória antiga de Porto Velho”.

O chefe do Iphan em Rondônia se julga vítima de uma campanha estimulada e promovida “por gente importante” interessada em burlar a lei da preservação histórica dos monumentos tombados. No entanto, Luiz nega-se a dar o nome daqueles que, em sua opinião, custeiam essa campanha. Em sua opinião, tudo o que tira a visibilidade das “Três Marias” não pode ser feito, nem com a desculpa de que tais obras gerarão emprego, renda e desenvolvimento econômico para o estado. Os elementos ligados à EFMM (e este é o caso das Caixas d’Água) são um orgulho para o Brasil, decreta o arquiteto Luiz. E no final Luiz Leite se diz favorável ao desenvolvimento do turismo, por crer na atividade como um dos melhores meios de gerar empregos para os porto-velhenses.

(Publicado na edição nº 78, de 31/3 a 9 de abril de 2006)

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