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Porto Velho,  seg,   24/junho/2019     
entrevista

A classe política não demonstra interesse no fortalecimento da Unir

18/4/2006 04:40:37
Por Gessi Taborda
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Lucio Gúzman quase foi reitor da Universidade Federal de Rondônia, quando do movimento onde acadêmicos, corpo docente e discente escolheram o primeiro reitor eleito pelo voto. 



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O ex-professor da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) Lúcio Gúzman hoje anda distante das atividades acadêmicas. Como aposentado da Unir recebe um salário irrisório de um mil reais. A situação só não é pior porque Lúcio também é aposentado como servidor do Senado Federal, onde assessorou por muitos anos o ex-senador Odacir Soares.

Mesmo distante da vida acadêmica, Gúzman acompanha com interesse as marchas e contra-marchas do setor, especialmente do ensino de terceiro grau de Porto Velho que, como professor, ajudou a fundar. Ele recorda o início, em 1981, quando pertencia à Fundacentro, entidade que foi o embrião da nossa Universidade Federal.

QUESTÃO DE JUSTIÇA

E por questão de Justiça o professor aposentado da Unir faz questão de ressaltar a importância de um político, Odacir Soares, na chegada do ensino superior a Rondônia. “A Fundacentro foi criada pelo Odacir, quando [ele] ainda era o prefeito de Porto Velho”, recorda Lúcio. E por ter também iniciado seu trabalho catedrático naquela época, Gúzman acabou se tornando o sétimo professor contratado pela nascente Universidade.

Buscando nas suas reminiscências os dados “que pouca gente sabe e muitos parecem fazer questão de esquecer”, o professor aposentado, também por uma questão de justiça, faz questão de ressaltar o papel do Odacir na implantação do ensino superior no Estado. “Foi ele, também, o pioneiro na implantação do ensino superior particular. Odacir acabou montando aqui em Porto Velho a primeira faculdade desse segmento, implantando a Faro, que começou em prédio cedido ali nas proximidades do Cujubim e Vila Triângulo”, destacou.

COMEÇOU COM DEFEITOS


Para discorrer sobre a situação da Universidade Federal de Rondônia e do próprio movimento universitário nos dias de hoje, quando somente em Porto Velho o número de alunos matriculados nos diversos cursos superiores ultrapassa a casa dos 10 mil acadêmicos, Lúcio usa uma frase forte: “A Unir começou com muitos defeitos, principalmente no aspecto de sua administração”.

Para ele até hoje a instituição sofre os reflexos dos muitos equívocos praticados por administrações que não estavam preparadas para “a implantação de uma Universidade e principalmente para a sua consolidação como centro irradiador de conhecimento, de cultura, de onde deve partir propostas capazes de resolver conflitos que contribuem para o fracasso das relações humanas”.

Lúcio acredita que somente agora, com a gestão do reitor Ene Glória, um experiente professor universitário, “a Universidade Federal de Rondônia tomo forma de uma instituição digna de seu nome”, embora ainda esteja longe do ideal, “exatamente porque o Glória pegou uma Universidade falida para arrumar”. E esse processo de conserto não deve durar menos que 10 anos, opinou.

CARÊNCIA DE RECURSOS


É um erro, vai explicitando Lúcio Gúzman, imaginar que os problemas da Universidade Federal de Rondônia sejam decorrentes da falta de recursos econômicos. Até porque, como disse, “a quantidade de recursos econômicos à disposição da Universidade dependerá sempre do grau de competência de sua administração em buscar esses recursos” no MEC ou fora dele.

Continuando, Lúcio acredita que as dificuldades econômicas em que se debate a Unir até hoje, fato sempre alardeado quando alguém questiona algumas de suas insuficiências, “são decorrentes da inoperância de administrações que produziram pouco, até no campo político, onde deveríamos ter deputados e senadores engajados em buscar esses recursos junto às fontes do governo e de outras agências de fomento”, anuiu.

A fragilidade da classe política rondoniense é uma realidade, acentuou Gúzman. Agora, destacou, “quando se trata de garantir recursos para um setor fundamental como a educação, principalmente para centros que precisam da excelência, como é o caso da Unir, aí a fragilidade, unida ao desinteresse e ao desengajamento dos políticos, se torna uma coisa horrorosa”.

Esta fragilidade está presente, explicou Lúcio, nas próprias fronteiras da Universidade: “Ora, a Unir mantém um representante em Brasília que parece não ter a menor utilidade. Consta que essa pessoa, ao contrário de ajudar a instituição acaba atrapalhando na hora de buscar e liberar recursos”.

É difícil mesmo para um especialista, explicou Gúzman, compreender o “enigma da Unir, que cresceu mas parece imóvel quando vista pelo ângulo de uma entidade que deveria estar contribuindo para transformações econômicas no Estado e na região, apresentando alternativas capazes de reduzir as desigualdades que em Rondônia vão se tornando crônicas”.

A DISTÂNCIA NÃO DIMINUIU

Mesmo concordando ser inegável a transformação profunda da Unir em termos materiais nos últimos 20 anos, para Lúcio a distância entre as pessoas, especialmente os mais pobres, e a Universidade permanece a mesma. O índice de analfabetismo em Porto Velho continua péssimo. A qualidade da mão de obra parece não ter mudado nada, o grau de intelectualização e aculturação do povo não é muito diferente do cenário de antes da Unir e talvez seja até pior.

Ainda é muito grande nos dias de hoje essa trágica realidade: quase todos que saem do ensino médio para chegar à Universidade têm de passar por um cursinho preparatório de vestibular. Isso é a demonstração de que o ensino é ruim, os professores ganham mal e não estão preparados para ensinar. E quando estão, não têm o suporte didático necessário para fazer o aluno aprender. Hoje os nossos professores pensam primeiro no salário, argumentou Gúzman.

TOLICE

Para ele, como a gente vive num país onde os governantes só dão importância a educação quando usam a retórica eleitoral, é perfeitamente compreensível “esta falta de mobilização do setor acadêmico diante da realidade em que todos vivemos”. E a falta dessa vontade de mobilizar contribui para a situação ficar como está. Sublinhando, disse Lúcio, “hoje parece que nem os estudantes e muito menos os professores desejam mudar, há uma despolitização enorme no meio universitário rondoniense. Por isso as coisas não são diferentes”.

Para o antigo educador é tolice “imaginar que o resultado eleitoral desse ano” vá determinar verdadeiras mudanças na nossa sociedade.

SEM CULPA

Lúcio acha um grande equívoco querer culpar a juventude universitária por esse alienamento e desinteresse. Em sua visão todos os outros segmentos sociais são pouco participativos politicamente falando. Isso, em sua opinião, se deve ao custo do fracasso da participação. As pessoas sabem, instintivamente, que para participar de algum segmento organizado precisam investir tempo, cumprir tarefas. E depois de tudo isso, correm o risco quase certo de ver fracassadas suas intenções. Há frustração principalmente para quem não reconhece que as nossas estruturas políticas e democráticas ainda são muito frágeis, filosofa Gúzman, concluindo: “É por isso que as pessoas preferem voltar para a sua vida normal do que correr o risco de perder dinheiro, ser discriminado e perder outros benefícios”.

(Publicado na edição nº 79, de 11 a 20 de abril de 2006)

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