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Porto Velho,  sex,   23/agosto/2019     
entrevista

“São todos farinha do mesmo saco”, diz Adilson Siqueira

2/6/2006 08:36:38
Por Gessi Taborda
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O PSOL surgiu e busca a sua consolidação dentro de uma visão que ultrapassa as demandas imediatistas, inclusive as das conjunturas eleitorais. 



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O mestre em antropologia Adilson Siqueira, professor de Sociologia e Filosofia da Universidade Federal de Rondônia, é uma das referências da esquerda no Estado. Ele guarda junto de si um grande trunfo: uma longa militância política que vem desde os tempos de estudante e de comunicador da Rádio Caiary, de Porto Velho.

Adilson, ativista radical nos tempos em que o PT era o partido da ética, atuou em vários movimentos de esquerda e pode ser considerado um dos fundadores do PT rondoniense. De tendência marxista, Adilson Siqueira sempre esteve à frente dos principais movimentos de luta dos servidores públicos e dos estudantes de Rondônia. Hoje o mestre da Unir é vice-presidente do Sindicato dos Docentes daquela Universidade e também vice-presidente da Andes-Norte, que representa nos estados dessa região os professores universitários.

Nesta entrevista exclusiva a Imprensa Popular, Adilson Siqueira abre o verbo contra a elite dominante, faz severas críticas ao PT e demais partidos de “esquerda”, chamados de “farinha do mesmo saco” pois são, em seu ponto de vista, semelhantes a todos os outros da linha neo-liberal, além de se mostrar confiante no seu atual partido, o PSOL, pelo qual poderá ser candidato inclusive ao governo do estado.

Imprensa Popular
Nos tempos em que o senhor era militante do PT, sua presença à frente dos movimentos que iam para as ruas reivindicar em favor da classe trabalhadora e denunciar o sistema era quase uma constante. Agora, num partido novo e longe do petismo, você voltaria a atuar no mesmo diapasão?

Adilson Siqueira
– Fui levado a todas as lutas das quais participei pela consciência de que precisava atender a uma determinada necessidade histórica. O capitalismo é perverso, desumano e implacável. A transformação da sociedade capitalista não excluí nenhuma forma de luta. Eu permaneço fiel a todas as convicções que me levaram a fazer parte do PT e sair do partido no momento em que ele assumiu o poder e passou a defender as bandeiras do neo-liberalismo e do capitalismo burguês. É claro que continuo participando de todas as ações destinadas a defender o socialismo, a justiça, democracia e a paz.

IP
Como o senhor vê a globalização do mundo no momento? É positiva ou negativa?

AS
– Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia e ex-assessor da Casa Branca, diz que, trabalhando no Banco Mundial, ele percebeu com os próprios olhos o efeito devastador que a globalização pode ter sobre países em desenvolvimento, em especial sobre populações pobres. A tão decantada globalização em vigor significa a remoção de quaisquer barreiras ao chamado livre comércio e à maior integração política e econômica entre as burguesias de todos os países capitalistas, facilitando até mesmo as intervenções bélicas. São eliminadas as barreiras alfandegárias, permitindo o livre trânsito de capital e mercadorias, por cima das fronteiras nacionais. É a ditadura do mercado internacional. Prega-se o modelo dos Estados Unidos, onde, por exemplo, as despesas com presídios superam o total do orçamento para a cultura. Junto a tudo isso, vende-se a idéia de que a felicidade reside na despolitização, no lazer, na busca dos interesses individuais, abandonando o cidadão solidário em benefício do indivíduo.

IP
O comunismo morreu? O socialismo...

AS
– Ao contrário, o comunismo ainda não nasceu, a não ser na sociedade primitiva. Precisamos compreender que o socialismo pode ser entendido como um período de transição entre o capitalismo e o comunismo, após uma revolução de caráter socialista. É quando se dão os primeiros passos para a socialização dos meios de produção e, conseqüentemente, das forças produtivas. Apesar de todo esse processo ser tratado cientificamente por Marx e Engels, superando os socialistas utópicos, nada pode ser imposto por decreto. Além disso, Marx não oferece nenhuma receita. Como bem lembrou Lênin, a teoria de Marx não é algo acabado e intangível. Nesse longo período de transição, quando o nível de desenvolvimento econômico, político e ideológico houver chegado a um estágio de harmonia que permita a cada cidadão uma nova forma de pensar, agir e viver, então é que se tem início o processo de construção do comunismo, quando as classes são abolidas e o próprio Estado não mais se justifica. Portanto, o que faliu na União Soviética foi o projeto de construção do socialismo, que trazia em seu bojo uma série de deformações, como a burocracia, o autoritarismo, a tirania stalinista...

IP
Para um intelectual e político de esquerda como o senhor, como responder a esta questão: Marx ou Deus?

AS
– Não há comparação possível. Karl Marx foi um político, revolucionário, filósofo e cientista, que nasceu em 1818, na pequena cidade de Treves, no sul da Prússia Renana, região situada hoje na Alemanha, na fronteira com a França. Foi um homem de carne e osso. As classes dominantes, com suas organizações de direita, tentam a todo custo jogar os cristãos contra os marxistas, como se o marxismo também fosse uma religião. O pretexto encontrado foi uma afirmação de Marx, numa polêmica com Bruno Bauer, de que as religiões funcionavam como “ópio do povo”, pregando o conformismo e a resignação. Obviamente, nenhum cristão pode negar isso. A propósito, lembro-me quando uma vez fui questionado numa reunião, por não ser religioso, da resposta que dei: “A divisão da sociedade não se dá entre religiosos e não-religiosos, mas entre oprimidos e opressores, explorados e exploradores.” Marx criou o Materialismo Histórico (Ciência da História) e o Materialismo Dialético, mostrando em todos os níveis o processo de luta de classes na sociedade, analisando o modo de produção capitalista e apontando para a construção do socialismo e do comunismo, quando nenhum homem será explorado por outro homem. Sou marxista, sou adepto da Teoria fundada por Marx.

IP
Qual é a sua crença sobre Deus?

AS – A vida quotidiana mostra a verdade da concepção materialista do mundo. Lembre-se que a Terra, conforme dados científicos, existe há mais de cinco bilhões de anos, mas o homem nela apareceu apenas há cerca de um milhão. O Frei Beto informa: “Não cremos no deus do capital, das torturas ditatoriais ou das idolatrias modernas. Cremos no Deus da vida anunciado por Jesus aos oprimidos. Deus que exige justiça para todos e quer libertar também os opressores de sua condição de artífice da injustiça.”

IP
Acredita na clonagem como avanço da Ciência?

AS
– Não tenho dúvidas. O avanço da Ciência é exigência da humanidade. Quanto à clonagem, certamente deve haver constante preocupação com as questões éticas. O principal objetivo da Medicina, como de todas as ciências, deve ser a defesa da vida e de um mundo melhor.

IP
Por que o senhor deixou o PT exatamente quando o partido chegou à chefia do poder no País e entrou no PSOL?

AS
– Na verdade as transformações ocorridas no PT, após o Lula virar presidente da República, colocou o partido na condição de “farinha do mesmo saco” do demais. Antes de chegar à Presidência o discurso do Lula era assim: “Não queremos apenas melhorar as condições do trabalhador explorado pelo capitalismo. Queremos mudar a relação entre capital e trabalho. Queremos que os trabalhadores sejam donos dos meios de produção e dos frutos de seu trabalho”. E ele dizia mais: “Queremos deixar bem claro uma coisa: no dia em que dirigentes do PT não puderem mais ir às portas de fábricas, aos locais de trabalho, ou lá onde se luta pela terra, é melhor fechar o PT”. Ora, depois de ouvir isso do Lula e ver o caminho que o PT escolheu para trilhar quando chegou ao Poder eu não tinha como ficar lá, não é mesmo. A Opção pelo PSOL foi natural. Ele não é um partido de gabinete, de salas atapetadas, de conchavos nos bastidores. No PSOL nós buscamos aprender com o povo, no seu local de trabalho, na luta pela terra, na periferia. É lá que nos abastecemos para a construção do projeto político do partido, reafirmando sempre nossa fidelidade ao trabalhador brasileiro. Quem está no PSOL quer um socialismo de emancipação do trabalhador. O PT de hoje está a serviço das grandes fortunas, dos banqueiros, por isso está pronto a fazer qualquer tipo de aliança com as forças conservadoras.

IP
O senhor tem esperanças de que o PSOL conseguirá resultados positivos nestas eleições?

AS
– Mesmo reconhecendo as dificuldades criadas para um partido como o PSOL se firmar, como a cláusula de barreira que temos de vencer, acredito que ela será uma grande alternativa de transformação da sociedade. Estou certo que a minha absoluta dedicação ao partido vai valer a pena. O PSOL nasceu dentro da mais recente crise da esquerda e neste cenário deverá crescer porque tem um patrimônio teórico que lhe permite um processo de autocrítica vigoroso. Pretendemos reunir as esperanças do povo sofrido e também daqueles companheiros decepcionados com a transformação do PT num partido parlamentar, com atuação condicionada a acordos e coalizões com os partidos conservadores, priorizando o reforço e o aperfeiçoamento dos limitados espaços de representação burguesa na sociedade. Como se pode verificar, está aí correndo atrás do PMDB.

IP
O que senhor pensa sobre as denúncias de corrupção no governo?

AS
– A corrupção é inerente aos governos que se submetem às regras ditadas pelo capitalismo. Os dados conhecidos de todos atestam a corrupção no governo Lula, num nível muito maior que a corrupção praticada nos governos anteriores. Ela foi tão grande que ninguém acredita que o partido do Presidente da República conseguirá reaproximar-se de seus compromissos históricos. Os petistas que entraram na onda da corrupção colocando o Brasil nessa situação vexatória causaram grande prejuízo à esquerda, porque o povo ainda os via como pessoas de esquerda.

IP
O senhor não deixou o PT tão logo o governo Lula tenha assumido o mandato. A frustração demorou a chegar?

AS
– Eu comecei a desconfiar de que a coisa não começaria bem quando foi divulgada a chamada “Carta ao Povo Brasileiro”, na campanha de 2002. Mas, ainda assim, eu queria acreditar na possibilidade de algumas medidas que pudessem ser caracterizadas como de um governo democrático e popular, que facilitasse a conscientização e organização da classe trabalhadora. Mas foi muito grave o que veio depois. O partido tanto passou a aceitar o jogo da política burguesa, que não recusou alianças nem com velhos representantes da tropa de choque de Fernando Collor, inviabilizando a implementação dos compromissos, como, por exemplo, rompimento com o FMI, auditoria da dívida pública e das privatizações, taxação das grandes fortunas na reforma tributária, efetivação da reforma agrária e prevalência das políticas sociais sobre as exigências do mercado.

IP
Por que tantas esperanças num partido como o PSOL, ainda mais com a decisão de não se coligar com nenhum outro partido em Rondônia?

AS
– A história não coloca problemas que ela não consiga resolver. Hoje, mais de que nunca, se justifica um investimento teórico-político que ultrapasse as demandas imediatistas, inclusive as da conjuntura eleitoral. O PSOL começa, na verdade, num momento difícil porque tem de participar de uma disputa muito desigual, sem ter uma estrutura montada para isso. Acreditamos que o PSOL vai fixar uma práxis política que será alternativa para esse contingente de militantes e para todos os que estão dentro dos movimentos sociais, chegando à intelectualidade de esquerda, que está sem saber para onde caminhar neste momento de crise.

IP
O senhor aceita disputar o governo de Rondônia pelo PSOL, mesmo diante de tantas dificuldades?

AS
– Estou a serviço do partido e muito me honraria atender a este tipo de convocação. Mas o PSOL já tem um indicativo para a disputa desse ano. O nome do defensor público José Augusto foi aclamado como nosso pré-candidato. Eu devo disputar uma das cadeiras da Câmara dos Deputados. Mas, como disse, tudo isso será resolvido na convenção própria para essa escolha.

Hoje nosso trabalho tem sido o de procurar conscientizar a população sobre a importância do PSOL conseguir o maior número de adesões possíveis para vencer a cláusula de barreira. Estamos com diretorias provisórios em pelo menos 15 municípios de Rondônia e acredito que poderemos surpreender aqueles que não acreditam na capacidade de discernimento da população.

(Publicado na edição nº 82, de 26/5 a 5 de junho de 2006)


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