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Porto Velho,  sáb,   28/novembro/2020     
política

A aventura de ouvir rádio em Porto Velho

23/7/2006 23:58:12
Por Aldrin Willy (*)
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Na capital rondoniense, quando se fala em rádio o que prevalece é a monotonia. 


 Ele é companheiro das donas de casa, voz amiga dos homens do campo e fiel confidente dos casais enamorados. Às 4 da madrugada, talvez a televisão ainda esteja fora do ar. Mas o rádio não dorme. Em boa parte dos longínquos recantos dessa Rondônia, o sinal de imagem não chega ou, quando muito, vem mesclado de ruído. Mas as ondas sonoras, até no mais remoto lugarejo, alcançam os receptores de um radinho de pilha. Também os casais apaixonados encontram mais enlevo e ternura nas ondas do rádio do que na poluída programação televisiva. O rádio também serve de pombo-correio entre os amantes. E, ao som das belas músicas que toca no silêncio da noite, muitas paixões já arderam.

O rádio é tudo isso e muito mais. É talvez o único meio que cria intimidade entre apresentador e ouvinte. Há entre um e outro uma espécie de cumplicidade, uma confiança mútua que não se tem em outros meios como a televisão ou o impresso. Afinal, ninguém escuta um programa com o qual não se identifica – ou com seu locutor. Aliado a essa característica, o rádio demonstra ser também uma excelente ferramenta para propagar o conhecimento, com enorme potencial educativo. São, enfim, inúmeras as possibilidades deste meio que em breve completará 84 anos de história no Brasil.

Aqui em nossa terra, entretanto, o horizonte do rádio parece estar limitado. Apesar de seu enorme potencial, o que se tem em Porto Velho em termos de programação radiofônica é algo muito aquém do que o meio tem a oferecer. A fórmula usada pela maior parte das estações está há muito superada. Até em termos de variedade tudo é muito monótono porque simplesmente não existe, nas rádios da capital, grande diferença quanto ao gênero e ao formato dos programas transmitidos.

Os programas jornalísticos, por exemplo, salvo heróicas exceções, resumem-se à leitura e ao comentário das notícias publicadas em outras mídias. Quando não seguem o formato de entrevista, talvez perseguindo o estilo “talk-show”. Mas nem de longe lembram Jô Soares, seu representante mais expressivo na televisão. Em certos momentos, o entrevistador é tomado por um espírito filosófico e passa a tecer elucubrações sobre os mais diversos assuntos – muitos dos quais nada sabe. Ou, em outros momentos, diante de um entrevistado poderoso, passa a controlar mais seus comentários e perguntas, evitando como pode certos temas.

RELAÇÃO DE MERCADO

Mudando o foco para o entretenimento, a monotonia permanece. Apesar de hoje haver rádios com algum espaço para músicas fora do padrão imposto pela indústria fonográfica, a programação musical das emissoras de Porto Velho soa como um coro uníssono, com algumas variações de uma estação para outra. Ora optando por uma grade mais voltada ao forró e assemelhados, ora pelos hits que ocupam as ditas “paradas”, ora por uma programação quase totalmente voltada à música estrangeira.

Não se pode negar, entretanto, o esforço, ainda que tímido, empreendido por algumas rádios no sentido de oferecer ao ouvinte algo que fuja um pouco ao padrão estabelecido. Programas como o apresentado pelo músico Antonino Alves, na Rádio Transamazônica FM, são exemplos disso. Assim como parte da programação musical da Rádio Vitória Régia, que consegue intercalar, ao longo de sua grade, alguma coisa da legítima Música Popular Brasileira, assim como exemplares da melhor música internacional.

Mas essa é uma questão que não aflige apenas as emissoras de rádio locais. Numa pesquisa feita em São Paulo, constatou-se que apenas três emissoras tocavam, ao longo de sua programação, música brasileira instrumental. Esse fato comprova o que diz no texto da pesquisa a professora Adriana Braga de Almeida Baptista: “A relação que se estabelece hoje entre rádio e música brasileira é uma relação de mercado. A música é tratada como um produto. O que interessa à emissora é o produto que mais vende, dentro de sua linha de atuação. E quanto mais produtos semelhantes para vender, maiores serão os lucros.”

IGREJA ELETRÔNICA

À parte a questão do conteúdo, os programas radiofônicos de entretenimento, em Porto Velho, têm formatos bastante parecidos. Outro gênero forte na capital rondoniense são os programas religiosos, notadamente os evangélicos. A presença cada vez maior de igrejas como proprietárias dos meios de comunicação vem provocando mudanças no cenário da comunicação no Brasil. Verdadeiros impérios se formaram e hoje existem redes nacionais de maciça programação religiosa. O maior exemplo é a Igreja Universal do Reino de Deus. Liderada pelo bispo Edir Macedo, a IURD detém a terceira maior rede de televisão comercial do país, a Record.

No caso do rádio, em Porto Velho, são duas as emissoras mais expressivas propagadoras de conteúdo religioso. Uma é a Rádio Caiari, a mais antiga do estado, ligada à igreja católica e ao bispo de Porto Velho, Dom Moacir Grechi. A segunda é a Rádio Boas Novas (RBN), pertencente à igreja Assembléia de Deus. Nesta última, a programação consiste em transmitir o conteúdo repassado pela geradora de Manaus, sede da Rede Boas Novas, à qual pertence a emissora.

A formação dessas grandes redes de comunicação por grupos religiosos não é um fenômeno tão recente no Brasil. Iniciou-se há cerca de 30 anos. Era o início da chamada “igreja eletrônica”. A pesquisadora Helena Corazza, da Congregação das Irmãs Paulinas, define esses grupos como “novos movimentos religiosos que se servem, preferencialmente, da mídia eletrônica, sobretudo do rádio, para difundir a fé e fazer prosélitos”.

TODOS POLÍTICOS

Quando se fala em função social do rádio, é obrigatória a menção a programas de cunho educativo e de serviço. No entanto, infelizmente, as rádios locais ainda são carentes de ambos os gêneros. Principalmente no que diz respeito a uma programação voltada ao fortalecimento da cidadania. Instruir e educar são objetivos, em todo o país, que colidem frontalmente com a comercialização e a conseqüente banalização dos conteúdos radiofônicos de hoje.

Uma amostra do que o rádio é capaz de oferecer nesse campo era o programa Falando com o consumidor, dirigido pelo jornalista e advogado Paulo Xisto. Veiculado na Rádio Boas Novas, o quadro fornecia um espaço para que o ouvinte tirasse dúvidas sobre suas relações de consumo, além de instruir o público sobre como reivindicar seus direitos. O programa não existe mais, uma lástima. Por fim, ainda sobre a função social do rádio, é relevante avaliar o quanto a concentração das emissoras nas mãos de poucos grupos impede o efetivo cumprimento de seu papel social. O veterano jornalista Ronaldo Rocha mostrou seu ceticismo.

Em entrevista dada três anos atrás ao jornal Imprensa Popular, após ser perguntado se o rádio cumpre seu papel social em Porto Velho, ele respondeu: “Acho que não, porque tem muitos interesses aí. Quem são os donos das rádios? São todos políticos, não estou dizendo se um é melhor que outro. Estou apenas dizendo que todos eles são políticos: Odacir, Everton Leoni, Morimoto, Rômulo Furtado”. Tal fato seria um embaraço ao livre cumprimento do papel social do veículo? “Lógico, ninguém pode falar mal da Ruth Morimoto na Rádio do Morimoto...” E o complemento: “Assim como não se pode falar mal do Odacir na sua rede de rádio.”

Artigo apresentado ao curso de Comunicação Social da Faculdade de Ciências Humanas, Exatas e Letras de Rondônia como requisito avaliativo da disciplina de Radiojornalismo II, ministrada pela professora Sara Xavier de Oliveira. Publicado originalmente no portal Observatório da Imprensa, edição nº 387.

(*) Jornalista, graduando dos cursos de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, pela Faculdade de Ciências Humanas, Exatas e Letras de Rondônia (FARO) e Informática, pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR)

(Publicado na edição nº 85, de 18 a 30 de julho de 2006)

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