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Porto Velho,  dom,   19/janeiro/2020     
reportagem

Professor que apoiou greve de estudantes é ameaçado de demissão

17/9/2006 21:00:39
Por Aldrin Willy
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Comissão que avaliou Estágio Probatório do professor Wladimir Nunes Pinheiro, o mesmo que se solidarizou com estudantes em greve, recomenda sua demissão da Universidade Federal de Rondônia. 



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Wladimir Nunes Pinheiro tinha tudo para consolidar sua posição como docente do curso de Medicina da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), se seguisse os conselhos que ouviu quando lá chegou, há coisa de dois anos. E esses conselhos, como ele conta, se resumiam em algo muito simples: “Não se meta em atritos” – pelo menos não no princípio.

O aviso não era sem razão. Todo professor quando entra na universidade passa seu primeiro ano no que chamam de “Estágio Probatório”. É um período em que o docente fica sob observação e ao final do qual uma comissão avalia seu desempenho, e emite parecer recomendando ou não sua permanência no quadro de professores da universidade.

Assim, seria muito mais cômodo a um docente, que passa por esse estágio, não se meter em conflitos de qualquer tipo para conseguir a aprovação de seus colegas. Por esse raciocínio, em vez de imiscuir-se, a omissão solene é mais prudente; e quando na iminência de emitir alguma opinião polêmica, o melhor é calar-se.

Mas o jovem médico Wladimir Nunes não deu ouvidos aos conselhos que ouviu no início. Talvez imbuído dos ideais de liberdade dos antigos iluministas, Nunes decidiu não trilhar pelo caminho da omissão covarde e culposa que alguns colegas lhe receitaram. Agiu num sentido totalmente inverso, participando, criticando, debatendo e tomando parte nos calorosos conflitos por que passou o curso de Medicina. Em especial no ano passado, quando os estudantes decretaram greve das aulas.

Nessa maneira de agir, conta Nunes, acabou despertando algumas inimizades dentro de seu meio. Mas ele suspeita que seu maior pecado não foi ter participado dos debates ou tomado parte nos conflitos, e sim tê-lo feito em favor dos estudantes.



JULGADO PELOS COLEGAS

A comissão que avaliou o estágio de Wladimir Nunes era composta pelos professores Vera Engracia Gama de Oliveira, Juan Villalobos Salcedo e Rosely Valeria Rodrigues, colegas seus do curso de Medicina. Vera Engracia acabou ficando com a presidência da comissão após a saída do professor João Lorenzo Bidat Sampaio, que deu lugar à docente Rosely.

Nunes diz sentir-se prejudicado já na escolha de seus avaliadores. Segundo ele, o relacionamento com boa parte dos docentes do curso ficou estremecido após sua tomada de posição a favor dos estudantes em greve, ano passado.

Especialmente abalada ficou a relação com a doutora Vera – presidente da comissão que o julgou – com quem avalia ter um relacionamento tempestuoso. Além do mais, Wladimir Nunes afirma nunca ter recebido qualquer aviso de que sua avaliação havia iniciado. O processo correu todo às suas costas.



PARECER: CULPADO

O parecer emitido pela comissão avaliadora aponta cinco critérios nos quais se baseia: assiduidade, disciplina, capacidade de iniciativa, produtividade e responsabilidade. Com exceção da assiduidade, em todos os outros o professor foi reprovado.

Nunes atribui esse fato a uma retaliação por seu posicionamento durante a greve dos alunos de Medicina. Seu engajamento a favor dos estudantes, assevera, se deu apenas para brigar por uma formação melhor para os alunos.

— A obrigação de estar me posicionando enquanto docente preocupado com a formação [dos estudantes], levou-me à necessidade de fazer algumas críticas com relação ao andamento do curso. Tudo no sentido de estar construindo e melhorando a qualidade desse curso e, com certeza, melhorando a qualidade do profissional que será colocado no mercado de trabalho, oferecendo um serviço melhor à população de Rondônia.



FALTA DE MÉRITOS

No segundo item do documento – capacidade de iniciativa e produtividade – os avaliadores acusam Wladimir de “ter sido aprovado sem nenhuma titulação Acadêmica”. O professor estranha tal afirmação, uma vez que, como diz, não poderia ter feito o concurso para professor especialista se não possuísse esse título.

“A partir do momento que me graduei em Medicina, ganhei o título de médico. E sou auxiliar1-especialista, pois não poderia ter feito o concurso se não fosse”, explica.

O documento afirma também que Nunes estaria atuando como orientador de pesquisa, em iniciação científica, sem ter para tanto a qualificação exigida, de Mestre. Sobre essa denúncia, ele diz simplesmente: “Eu não oriento nenhum aluno. Não sei de onde tiraram isso”.

O parecer admite a existência de outros casos de orientação irregular de pesquisa e cita, logo abaixo, um texto do CNPq que nada trata sobre a irregularidade em si, mas sobre a utilização indevida de bolsistas como mão-de-obra para as pesquisas. Algo que, segundo consta, é intensamente praticado em quase todos os institutos de pesquisa da região.



LÍDER ESTUDANTIL

Mas os ataques mais fortes a Wladimir Nunes se concentram no terceiro tópico do documento: disciplina e responsabilidade. Ali, o docente chega a ser incriminado pela aura de exacerbação, descontentamento e hostilidade dos estudantes com relação ao curso e aos professores.

Em trecho mais adiante, Nunes transforma-se em líder estudantil, aos olhos de seus julgadores. “Todas as evidências e indícios levam-nos a concluir que o professor Wladimir Nunes Pinheiro fomentou e participou ativamente do movimento grevista dos estudantes em 2005”.

O professor se defende. Diz que o movimento estudantil é autônomo e independente e que em nenhum momento “fui liderança deles”. “Participei da liderança do movimento estudantil na minha época quando eu era estudante, o que não se reflete agora. Agora se a gente tem uma proposta de ensino que tem uma identificação maior com os alunos, aí já não é mais problema meu.”



INFLUÊNCIA NEGATIVA

Um caso em especial, narrado no documento, deixa o professor Wladimir estarrecido. Trata-se, segundo o parecer, de um aluno que, durante exposição de trabalhos do PIBIC (Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica), passou a tecer críticas à universidade diante da banca composta por autoridades do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e do Ministério da Educação, simplesmente “por não ter dados científicos a apresentar”. O caso é que o parecer imputa tal atitude a uma influência do professor sobre o estudante.

Mas o docente dá uma versão do ocorrido bem diferente da descrita no parecer.

— Essa comissão atribui esse clima de hostilidade a minha pessoa, como também a fala desse aluno. Isso é muito complicado, primeiro porque [a comissão] diz que o aluno apresentava um trabalho e por falta de dados científicos passou a criticar a universidade. O aluno não estava apresentando trabalho nenhum. Ele apenas fez um comentário do próprio papel da universidade, que não diz respeito apenas à realidade da Unir. Mas enquanto Instituição de Ensino Superior, ele estava tentando resgatar o papel social da universidade.



DESLEALDADE

Em outro trecho, os avaliadores tomaram um fragmento de reportagem publicada em Imprensa Popular há cerca de um ano, sobre a crise no curso de Medicina, para justificar o que classificam de deslealdade do professor Nunes para com a universidade.

No entanto, os membros da comissão, além de a terem removido de seu contexto original, alteraram sutilmente o sentido da frase, retirando-lhe as primeiras palavras, “da maneira como o curso está”.

Assim, o que sobrou do relato no parecer foi apenas “não permitira que sua própria filha fosse atendida pelos médicos formados pela Faculdade de Medicina da Unir”. O documento não traz, entretanto, a explicação do médico sobre sua fala, publicada na mesma reportagem. Segundo ele, sua frase fazia referência apenas ao processo formativo e não aos acadêmicos. “Não deslegitimo os alunos da Unir, pelo contrário, cada vez mais eles me provam a alta qualificação que têm”, explicou na ocasião.

A comissão, no entender de Wladimir, confunde lealdade com submissão. Ser leal, conforme o dicionário Aurélio, é o mesmo que ser “sincero, franco e honesto”. E não se pode dizer outra coisa de Wladimir quando criticou abertamente a condução do curso de Medicina. “Não estou denegrindo a imagem da universidade. Estou buscando a qualificação dos estudantes para que realmente saiam daqui com uma imagem melhor da Unir”, afirma.

Se quisesse, o professor poderia recorrer ao pensamento de Sócrates. “Obedecer não é submeter-se cegamente”, ensinava o grande filósofo. Por coincidência, assim como Wladimir, o pensador grego também foi acusado de exercer má influência sobre os jovens. Acusação pela qual acabou sendo condenado à morte.



SOLIDARIEDADE

Nunes já recebeu a solidariedade dos alunos de Medicina e da Associação dos Docentes da Unir (ADUNIR). Em carta enviada ao Departamento de Medicina, o Centro Acadêmico (CA) do curso expressou seu apoio ao professor e rechaçou a tentativa de puni-lo pela posição tomada em favor dos alunos na greve do ano passado.

Em atitude semelhante, a Adunir mostrou preocupação com a situação do professor de Medicina. Membros da associação se disseram estarrecidos com a possibilidade de se transformar o “Estágio Probatório” em instrumento de perseguição política, sobretudo no seio de uma universidade pública.

Outro fato duramente criticado pela Adunir foi a atitude da comissão, que encaminhou seu parecer diretamente à reitoria, ignorando os trâmites regimentais. Pelo regimento da universidade, o reitor Ene Glória deveria ser o último a receber o documento. Antes ele passa pelo Colegiado do curso, formado por seus professores e alunos e, depois, pelo Núcleo de Saúde. Acredita-se que a manobra visava obter de Glória uma decisão instantânea, decretando o afastamento do professor Nunes.

E ele, Wladimir Nunes, não tem dúvidas: “Só pode ser perseguição política”.

Foto: Aldrin Willy


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