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entrevista

Bertagna: “Precisamos de uma política cultural com urgência”

4/9/2007 14:14:52
Por Aldrin Willy
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Na opinião do cineasta Beto Bertagna, Rondônia precisa urgentemente definir sua política cultural para marcar posição no cenário cultural do país. 



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Berto Bertagna é um dos mais laureados cineastas de Rondônia. Premiado no mundo pelos filmes que produziu, alguns dos quais tendo como tema esta terra, hoje ele é referência no mundo cinematográfico da região e tem expressão nacional.

Não é sem mérito, portanto, sua colocação na presidência da representação para Rondônia e Acre do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Bertagna entrou no lugar antes ocupado pelo arquiteto Luiz Leite, alvo de inúmeras críticas por sua atuação “paralisante” à frente da autarquia.

Nessa entrevista exclusiva, o prestigiado cineasta fala de sua preocupação com o setor artístico de Rondônia. E afirma, com convicção, que o estado só deixará de ser um ator secundário no cenário cultural do Brasil quando definir, de uma vez por todas, sua política para a cultura, para que todos saibam quais são “as regras do jogo”.



Como ficou sua produção cinematográfica depois que você assumiu a superintendência do IPHAN?

Eu esperava manter mais ativamente essa parte pessoal, mas infelizmente, nesse aspecto, o Iphan me toma todo o tempo, 24 horas do dia mesmo. Então essa parte pessoal ficou meio prejudicada. Até porque o órgão está precisando ter uma outra dimensão. Ele atende dois estados (Rondônia e Acre) e, como a atuação do órgão é muito recente, há muitos problemas.

Como cineasta, você não se sente frustrado com isso?

Em parte sim, porque é uma coisa que a gente gosta. É o mesmo que você, como jornalista, ser obrigado a assumir uma função e, durante um período que não se sabe qual, ter que relegar a segundo plano. Mas eu continuo escrevendo muito, gosto de escrever roteiros. Eu leio muito, à noite, durante a semana. Estou sempre por dentro do que está acontecendo, em contato com os amigos e tal.

Qual sua avaliação sobre a produção de cinema aqui? O setor está em progresso?

A parte cultural, não só cinema, sempre foi muito complicada em Rondônia. Eu noto que às vezes se poderia avançar mais. A gente avançou em algumas coisas. Mas o que eu vejo muito são atitudes isoladas dos produtores. Ou seja, falta uma política cultural definida com a qual o produtor possa contar. Ele possa saber, por exemplo, que ano que vem vai poder executar tantos livros, tantos filmes, tantas peças de teatro. Isso não existe em Rondônia. É preciso uma política cultural que deixe bem claro a atuação do governo no setor. E é bobagem a gente achar que o governo não tem obrigação. O governo tem obrigação, sim. Até porque arrecada imposto. Tem obrigação com saúde, educação, uma série de coisas, e também com a cultura.

Rondônia tem condições de ter uma indústria cinematográfica?

Eu, como cineasta, não posso deixar de acreditar que sim. Senão não estaria nem produzindo e cairia fora amanhã daqui. Eu acredito, mas vejo que as dificuldades são muito grandes. Por isso eu digo que vejo atitudes muito isoladas dos produtores. A gente fez alguns curtas-metragens, alguns documentários, que tiveram até projeção nacional. Sempre participou de festivais fora do Brasil. Agora tem o CineAmazônia, já no quinto ano, uma coisa exemplar porque normalmente as coisas em Rondônia acontecem a primeira vez e acabam. Já está na quinta edição e sempre trazendo pessoas ilustres para conversar, para debater com a platéia e provocar o interesse da juventude por isso aí. A nossa preocupação maior, até nessa questão da indústria cultural ou do cinema, é com essa juventude que está aí. Não seremos nós os velhos que vamos trazer isso. Nós podemos até plantar sementes – como acredito que o fizemos – mas vai depender dessa nova geração que vem aí. Ou seja, se não houver uma renovação, uma formação de platéia, interesse da nova geração em realmente partir para a produção, vai ficar muito difícil.

Como as faculdades poderiam ajudar para criar uma visão mais profissional do cinema, até como indústria, como algo que gera renda?

Tudo começa com o debate. Seria preciso estimular o debate entre os universitários que eu acredito que ainda é muito fraco. Acho sinceramente que a proliferação de universidades em Rondônia foi mais para o lado comercial, mais para o lado clientelista, uma vez que a maior parte dos acadêmicos são clientes das universidades. Então é preciso, primeiro, essa conscientização por parte das universidades. Eu me lembro direitinho do caso que aconteceu quando veio para cá aquele grande jornalista, Audálio Dantas, e teve faculdade de comunicação que não liberou os alunos para irem à palestra, quando aquilo ali representava, na verdade, um conhecimento talvez maior do que o de um semestre inteiro. Então é isso aí. Cinema também é isso. Os debates do CineAmazônia são feitos com pessoas realmente de proa do mundo cultural.

Rondônia já comporta um curso superior de Cinema?

Acho isso ainda um pouco complicado. Teria de se solidificar a base universitária e realmente ser uma entidade que busque conhecimento. E isso aí ainda está deixando um pouco a desejar, porque ainda falta esse debate, falta envolver a comunidade acadêmica. Só relembrando a questão do CineAmazônia, para o qual são trazidas personalidades realmente difíceis de encontrar, nos debates com essas pessoas ilustres você pode contar nos dedos o número de universitários presentes. Isso não é exclusividade dos cursos de comunicação, mas se repete nos mais variados cursos.

Falta compromisso dos políticos locais com a cultura para que Rondônia alcance uma posição de destaque nesse setor?

Isso é uma constatação. Se você fizer uma enquete na classe política, você vai ver que são muito poucos os que têm realmente interesse pelo lado cultural. Na verdade eles buscam mais apoiar essas coisas de massa que dão visibilidade. Acho que é necessário mais engajamento decente para apoiar. Mas o principal entrave que vejo é a falta da política cultural, ou seja, a regra definida do jogo. Saber o que vai se fazer, ter os orçamentos previstos para isso. O produtor cultural também sofre muito com isso, com as regras do jogo mudando o tempo inteiro. Isto é, vão mudando os cargos e vai mudando a mentalidade da entidade, uma coisa que não deveria acontecer.

A classe ligada à cultura toma alguma posição, age para tentar mudar esse quadro?

Eu acho a classe toda muito dividida, cada um puxando a sardinha para sua brasa. Eu sempre considerei a música como o melhor que tem de arte em Rondônia, muito mais que cinema, mais que teatro, que artes plásticas. Acho que a música de Rondônia é uma das atividades artísticas que mereceria ter um destaque, nacional inclusive. Mas noto também essa inconsistência dos próprios artistas, ou seja, divisões, grupos, rachas internos que acabam na verdade fragilizando eles mesmos. E isso é um problema. Não vamos conseguir tão cedo uma unidade para juntar todo mundo e dizer “vamos batalhar por esse ideal que é comum”.

Como você avalia a presença dos centros acadêmicos na promoção cultural?

Não sou tão velho, mas sou de um tempo em que os centros acadêmicos tinham uma função política preponderante no país. Hoje, não sei bem por que, não vejo uma atuação forte dos centros acadêmicos nessa parte da política estudantil que é necessária. Então se eles não conseguem se posicionar politicamente, que é uma função de todo diretório acadêmico, eu também vejo falho e fraco esse posicionamento cultural. É preciso ter mais pegada, uma coisa mais sólida dentro das faculdades. Mas, mais uma vez, falta muito essa integração, falta muito esse diálogo. Por isso, volto a repetir, toda vez que vem uma pessoa proeminente do mundo cultural, você vê que [nos debates, palestras, etc.] só tem sempre aquela meia dúzia de pessoas, já conhecidas. Você vai num evento, estão aquelas pessoas; vai em outro e lá estão as mesmas pessoas. Não se nota um maior interesse da comunidade. A gente não pode só reclamar que não tem opção na cidade. Às vezes, tem coisas que aparecem e as pessoas não vão, não sei se por preguiça, desinteresse. E aí, quando aparece uma coisa mais popularesca, brega, digamos assim, que envolve bebida e uma cultura popular mas mercantilista, aí as pessoas vão sem o menor problema.

Como o Poder Público deve aturar para que isso mude?

Volto a falar da questão da política cultural. Precisamos decidir o que queremos para Rondônia culturalmente. Como vemos o estado hoje e o que se quer de Rondônia, em termos de cultura, daqui a dez, quinze anos? Como o governo vai atuar? Vai estimular as artes plásticas, por exemplo, porque detectou ser esse um setor com potencial? Então é preciso definir isso, o que depende não só do governo, como também da classe artística. Não adianta um pequeno grupo de artistas ir cobrar apoio e outro ficar à parte. Da mesma forma que um artista conseguir apoio e outro grupo de 50 ficar de fora. É preciso se ter uma coisa mais unitária, com a qual todo mundo possa contar e saber qual é a regra do jogo.

Rondônia recebe algum tipo de recurso para produção de cinema?

São sempre esforços isolados. No caso da região Norte, mais especificamente em Rondônia, os recursos recebidos são fruto da ação isolada de um ou outro produtor que consegue quebrar barreiras, ganhar um concurso, às vezes competindo em condições desiguais com 900 concorrentes de São Paulo e só assim se consegue. Até porque as grandes empresas que apóiam a produção – não de cinema, como também de livros, de pesquisa – a base de decisão sempre fica em São Paulo, Rio ou Brasília. Então aqui para o Norte, restam só migalhas, quando preenche a cota lá, eles vêem o que sobra e “vamos mandar para a periferia do Brasil”.

Quem você destacaria hoje no segmento do cinema local?

Dá para saber as pessoas que estão envolvidas e têm atuado. Temos o Joéser Álvares, que ganhou um edital em 2006; temos o Jurandir, que está sempre produzindo; temos o Luiz Brito, um fotógrafo que está sempre produzindo alguma coisa, mesmo com dificuldades. Acho que não passa muito disso. Há outros produtores mas que são muito bissextos... ficam sem produzir por dez anos e depois aparecem com um trabalho.


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